quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Incompatibilidade de ingênuos...



Vossa excelência me perdoe a insistência. Sei q cometo a indecência em interpelar, mas está doído suportar o crescente mercado da violência. Tenha santa paciência. Quase ninguém ousa falar. O q é o q é? O q há no kilowat q nessas horas a rádio sempre sai do ar.

Eu sei. Eu sei. Vossa eminência exerce o árduo ofício de aparar arestas, tentando juntar no mesmo balaio tdo o q não presta. Tantos projetos em nome de coisa nenhuma. Todos com o intuito de sustentar a livre miséria do povo e manter robusta a condição do próprio bolso. Tudo as custas de eficientes ‘tapinhas’ nas costas do educado funcionário q lhe serve o almoço.

Não. A azeitona não foi servida com caroço senhor...

Nas ruas o q mais se ouve é o histerismo cego de um alguns. Reconheço q, a princípio, dá gosto ver tamanho alvoroço. No entanto, qdo se chega mais perto se dá conta q a galinha é carne de pescoço. Nos quintais de casa viúvas desoladas alimetam pintos fanáticos. Assim defendem a merda q toleram e pisam. 

De bate-bocas em bate-papo enfurecidos goiamuns confraternizam na lagoa do saco.

É tanto boçal querendo aparecer na TV e na coluna do jornal, q fico em dúvida se é natural o sabor da uva ou tanto frenesi é algum sintoma paranormal, distante de meu alcance cerebral.

Ainda tem o lance, reverendíssima, da inadequada preguiça repentina, qdo alguém fala em dividir o máximo com o cidadão comum. Além da falta de verba e do fator previdenciário é patente o cuidado com as divisas. Equilibrando dívidas e dúvidas o malabarista esquece q nos bastidores do circo é taxado de palhaço.

O q envergonha a piranha é a falta de vergonha. Coitada da secretária. Nunca sabe ao q serve tanta comissão. Se gasta tantos adjetivos com os coletivos, q o gerúndio fica sem rumo, perdido em meio às malditas articulações.

Vosmicê há de compreender q dá vontade de vomitar...

Acha melhor parar? Ah! São os famigerados compromissos inadiáveis. As bases carregam os q se atrevem a falar mal dos 'mano'. Agora são ‘campeão’. Embora não sendo ano de eleição, as ‘estrelas’ prepararam a farsa da mais nova conjunção. Tudo devidamente resguardado nos anais do prostíbulo.

Pois é vivente, esse é um país q vai pra frente! Não temos Deni e Dino. Para compensar mantemos o sorriso do Dino, o sauro, e zezé luciano q não nos deixa mentir em paz.

Enquanto isso, meu amor, estamos em pleno vapor! É com orgulho q preparamos a nação para os dias de copa. Enquanto a cidade dorme Alicinha faz chacota do alto do seu terraço.

Longe dos gramados o mundo não resiste e rebola diante de uma bola. O q ninguém sabe é onde ela se encontra por essas horas. Nem têm ideia de qdo vai parar...

Ah tá!...







Montagem sobre foto de Bill Pugliano / getty images

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Enigma de otário... Dança de salão...



Olho a paisagem com olhos miúdos. Esmiúço fronteiras desrespeitando latifúndios. Em respeito a terra e aos mortos q nela se enterram reconheço o q resta e mantenho a sentinela em alerta. Cruzo com riscos os pisos em falso. Enfaixo sorrisos de rastros moribundos.

Talvez exorcize o exercício da bondade.

A maldade q mata a sede alimenta o tesão do poder. Quem rega a dor cultiva a sensibilidade q semeia a flor.

Por intuição salto gigantescas cancelas. Abro as comportas da barragem e picho as paredes em decomposição da prisão. De uma vez por todas desmistifico a solidão.

Nenhuma independência é razão para a morte. Com pouco de sorte talvez o prazer se torne um mal necessário.

Não! Não me chame de otário.

Vale o riscado. Só não vale o dobrado. A depender do tempo do verbo, o sujeito se sujeita a ser senhor da própria senzala, lacaio, com direito a todos os predicados, de si mesmo.

Enquanto não se define a data da mudança ortográfica peço q não mexam na batida do samba. Já é duro aguentar verborragia insana do politicamente correto. Lembra a patrulha ideológica de outras horas. Se  descamba, mesmo surdo saio de banda.

Na despedida é q se dá vida às razões paridas na dor do suplício. Creia, vale o sacrifício.

Já não te servirás de tanto juízo para bailar nas ruas com tu’alma apodrecida e nua. Presa ao anzol de teu sol, enfim comporás valsas felizes para a lua, nos braços flutuantes de tua própria ilusão.

Quer melhor?

Então q se aguarde o resultado desse emblemático ato falho denominado ‘mensalão’.


 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Leitura labial...


Era rotina derrapar nas curvas sinuosas da imagem. Não diria por vadiagem. Mto mais por desejá-la solta na paisagem. Loucos roteiros desenhados com esmero no irrequieto cérebro.

Sua sorte era o pensamento não ter leitura labial...



sábado, 15 de dezembro de 2012

In completo...


Tempos de sexo
Sem nexo.
Templos de nexo
Sem sexo.

Contemplo a tudo
Perplexo repasso o tempo
no silêncio dos ventos.
Incompleto.

Seriam, enfim,
tempos modernos?


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Batutas, batuques e alhures...



Após a poesia fez-se o dia. Durante o dia se refizeram no q havia, outra vez.

Mesmo sem a noção do tamanho de tanta ousadia, se atreveram pelo espaço em descompasso, com os limites de criança ao engatinhar nos primeiros passos.

O q se deu depois de alguns abraços foi até covardia. Despiram anjos. Pariram demônios. Tocaram harpas no alinhavado de seus corpos.

No dia seguinte se deram conta q o fim de um mundo era infinitamente particular.

Sem prévio aviso abriram as portas do imaginário paraíso. Com notas nada musicais dedilharam parábolas e sopraram fábulas em seus ouvidos, com a rima percorrendo os vasos sanguíneos. Tanto os de baixo, como os de cima...


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Colóquios óticos... Atestado de óbvio...



Das viagens levava paisagens, um fígado partido e o coração repartido em retalhos de outrora. Uma vontade sem hora. Uma senhora de tantas vontades. Estilhaços de um amor cego e um ego sem esperanças de saborear o fruto colhido com as mãos.

A selva encoberta de pedras escondia o encanto do canto do passarinho preso no canto da gaiola. Ora bolas! Ninguém dava bola se o sabor da carambola era transgênico. Em um mundo recheado de gênios o bem estar não saia das salas de reunião trancadas por portas sem saídas.

Haja Frida para tantas Angela Merkel e Margaret Thatcher.

Conforme pôde podou as ervas daninhas ribeirinhas, para, na solidão da noite sozinha reconhecer q o medo era o trampolim do desejo e cada segredo, por mais escondido, era nascente dos aflitos olhos d’água. Sarajevo em nada lembrava Manágua.

Despida a cena anáguas obscenas cobririam a luz do abajur.

Como um enlouquecido cão de Cervantes percorreu o território livre dos rompantes e habitou o livre arbítrio dos romances. Em quartos de hora se sentia sozinho. Em outros quartos, ambíguos carinhos de alegres margaridas e exibidas madressilvas.

Do girassol fez anzol. Beijou a flor e o ventre de tarântulas assassinas.

O tempo passou sem mudar o destino do barco e o instinto de Baco. Nenhuma razão havia para alterar o roteiro escrito no pulsar das veias. Nem a mais forte ventania ousaria de varrer a poeira incrustada nas estrelas q trazia na algibeira. A ilusão da vida nos tons mais explícitos de uma poesia jamais descrita pelos seus lábios.

Olhando o rastro violeta descobriu q borboletas nunca paravam de voar. Adornou o rabo do cometa com fetiches, buscando raízes na luz da loucura. Não cortou o pulso por impulso, mas beirava os precipícios.

Algo q nunca soube explicar, mas seu coração sem juízo, sempre teimou em se lançar... 







Montagem feita sobre fotografia de Leila Silveira

sábado, 1 de dezembro de 2012

Bainha de todos os demônios...



Toco.
Evoco demônios.
O corpo canta
Na língua dos anjos.
A alma em festa
Dança.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Narciso...



Pensava em suicídio qdo viu sua imagem invertida no lago.
No mesmo instante, um tanto impreciso,
Fez o q parecia impossível: abriu um largo sorriso.
Sem pressa tirou as roupas e se atirou...
Fez o q era preciso.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Aeternam dona eis...



Um dia partiu gêmea do filho q pariu para fugir de casa. No dia seguinte, por conseguinte, mal teve tempo de enxugar as lágrimas nas fraldas estendidas na cortina do banheiro.

Sem saída chegou a aventar nova fuga. Ideia abortada na porta de saída de um conjugado alugado, por onde entrara com seu novo patrão.

Assim o tempo passou igual aos passarinhos q antes cantavam em sua janela. Somente ela não conseguia sair do lugar. Assim os dias insurgiam em uma rotina de vida passada e repassada na tábua de passar.

Sem saber como conter tanta fúria com a palma das mãos, viu sua angústia emudecida diluir-se no tanque onde umedecia as partes mais íntimas de sua solidão.

No terceiro dia conheceu o inferno. Mesmo dia em q seu filho subiu aos céus com as ‘roupas sujas’ empurradas com a barriga.

Do quarto olhou o dia amanhecer sem oferecer mais resistência. Não mais reclamou do tempo, nem da falta de sonhos dos antigos juramentos. Em silêncio prosseguiu o réquiem de uma vida deixada para traz, bem lá atrás.

Nos retiros espirituais sentia o lampejo de tiros dados no escuro. Há quem diga q chegava a ouvir os pontos iniciais de uma desafinada canção de ninar...







Aeternam dona eis - ‘Dai-lhes o repouso eterno’. Frase em latim q inicia 'o ofício dos mortos' na liturgia católica.

Montagem feita a partir do quadro ‘retrato de Suzanne Valadon’, de Toulouse-Lautrec.

Suzanne Valadon (1867-1938), nome artístico de Marie-Clémentine Valade, pintora francesa pós-impressionista de personalidade marcante no cenário artístico parisiense no período pré-cubismo. Qdo jovem foi garçonete nos cafés e acrobata, abandonando o circo para trabalhar como modelo de Renoir e Toulouse-Lautrec. Iniciou-se na pintura e desenho sob proteção de Edgar Degas, tornando-se a primeira mulher admitida na Société Nationale des Beaux-Arts.

No final do texto um leve sobrevoo no vagão sonoro dos ‘retiros espirituais, de Gilberto Gil.


domingo, 18 de novembro de 2012

Mambo, jambos e escambo...



Cedo ou tarde cedo a sede e balanço a rede. Quem sabe ela cai nos meus braços...

Não importa se a paisagem é um mosaico de colagens ou pintada em aquarela. Longe da tela a atriz sempre se mostra mais bela. Sem maquiagem a emoção salta aos olhos e eu embarco na sua melhor personagem.

Caramba, como rebola!

Sem demora abro as cortinas e faço jazz nas suculentas carambolas. Tomado de feitiço liquidifico a dor no apalpar das castanholas. Se o mundo não pára saio no encalço e a enlaço. De bate pronto danço um mambo, saboreando jambos, preso ao seu corpo.

Puro escambo... 

Beco Buñuel... Bedel Babilônia...



A noite vigiava seus passos. Durante o dia dormia em sonhos assanhados. Seu deus era fêmea e a mãe natureza androide. Por osmose o asteroide sacodia a tribo, deixando aflitos os periquitos e de molho os bigodes. Quem não os tinha se vestia de grife e sacudia do jeito q podia no passo da república.

No soneto da madrugada a menina nada pudica destilava o veneno nas bandeiras desfraldadas. 

Com a alma endurecida na pedra e a boca anestesiada o marginal contorna o recheio das calças e encosta o berro no ouvido.

A idade medra no deslizamento de terra na região serrana. O ministro quebra o protocolo e reclama, mas não abre os próprios olhos. Tdo continua soterrado como ‘dante’. Assim como o 'brazil', o 'rio de janeiro' continua lindo. É só não deixar o rabo preso na inauguração.

Não é de estranhar ligar a TV e ver maluf sorrindo. Tantos outros, vermelhos de vergonha, continuam mentindo. Colo de cargo e o apoio de abraços são afrodisíacos. Petraeus q o diga...

As paredes dos presídios apertam tanto q desabam na população de teto baixo. Na agonia a demagogia soa como impropério. Na dúvida o passageiro salta do ônibus antes do ponto final. Não faz mal. Na próxima eleição começa tdo outra vez. Culpa de vocês.

Milton pergunta a Chico pq a enceradeira não sai do lugar? O q será q será, q dá qdo não deveria...

Depois de uns dias de chuva abro a janela do quarto de hotel para ver Quintana passar. Mas o q ouço é João, o Gilberto, cantar quão triste é viver na solidão de nossos ideais.






Luis Buñuel (1900 - 1983) foi um cineasta espanhol, nacionalizado mexicano. Trabalhou com Salvador Dalí, de quem sofreu forte influência. A obra cinematográfica de Buñuel, aclamada pela crítica, sempre foi controversa e esteve cercada por uma aura de escândalo.

domingo, 11 de novembro de 2012

Ratos de prontidão...



Viver é função de múltipla escolha. Matemática sem fórmula precisa.
Coisa q nenhuma ciência explica e a natureza humana faz questão de complicar.

Na dúvida é bom saber onde se largou o guarda-chuva. Por vias de dúvidas tenha à mão o saca-rolha.

Por princípio o verbo nunca é o q parece.
Se a carola estica a prece, o vigário coça a ponta do nariz.
Ainda q as estatísticas demonstrem  eficiência,
o inconsciente desmente.
E o q é mais surpreendente, foge da consciência.

De cabeça erguida o povo aplaude a própria desgraça sem saber o pq.

- É versão inexata descrita no imaginário. Todo compêndio tem seus glossários e um rosário de lamentações. Frisou o companheiro ao desconfiado trovador.
Na alvorada cotas da base aliada fazem frente ao bom juiz. Infeliz... Ou anda com escolta armada. Ou faz como o corrupião, q apesar dos planos, durante o voo é q escolhe a melhor direção a seguir.

Enquanto Ben Jor preocupava-se com os alquimistas, os anarquistas entravam na lista, os socialistas subiam e desciam escadas com o charuto no bolso e um voucher na mão.

Está cada vez mais difícil se saber a verdadeira identidade do nosso ladrão.

C’est la vie, meu irmão...



“Em todos os tempos se quis “melhorar” os homens: é isso que, antes de tudo, foi chamada moral. Mas sob esta mesma palavra “moral” se ocultam as tendências mais diversas. A domesticação do animal humano, bem como a criação de uma espécie determinada de homens... Chamar “melhoramento” a domesticação de um animal soa a nossos ouvidos quase como uma brincadeira. Quem sabe o que acontece nos estábulos, duvida muito que o animal seja neles “melhorado”. É debilitado, é tornado menos perigoso, pelo sentimento depressivo do medo, pela dor e pelas feridas se faz dele um animal doente. E torna-lo doente é o único meio de enfraquecê-lo.” Trecho de ‘Crepúsculo dos Ídolos’, de Friedrich Nietzsche.






O Corrupião é uma ave encontrada na caatinga e zonas áridas do Brasil. Tbém conhecido como concriz, joão-pinto e sofrê.

Friedrich Nietzsche foi um influente filósofo alemão do século XIX. Para ele não existia vida média, entre aceitação da vida e renúncia. Para salvá-la era necessário arrancar-lhe as máscaras e reconhecê-la tal como é: não para sofrê-la ou aceitá-la com resignação, mas para restituir-lhe o seu ritmo e júbilo. 

Montagem feita sobre fotografia de Gilson Camargo

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Conto sucinto... Tatu sem tato...


Fazia um belo dia de sol na selva.

Um tanto taciturno o tatu-bola encontrou o tatu-canastra carregando nas costas um monte de despachos.

- Bom dia, tatu! Tá tudo bem?
- Tá nada tatu. Tá tudo errado...

Antes q houvesse quórum coçaram as cabeças e correram, cada um para seu respectivo buraco.

No ato.
Quer dizer, no mato..


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Quarto minguante... Espelho da lua...



No quarto em silêncio esmurrou o escuro. No quarto murro derrubou o muro. No mesmo instante o grito solto na garganta fez eco no céu da boca. Entrementes o quarto da lua minguante a boca salivou de um jeito irreverente. Com seu habitual ‘modus operandi’ seguiu mastigando a vida sem saber o q viria pela frente.

Ninguém sabe de nada nesta prosaica Era de extrábicos e sabidos. O engraçado é q até hoje fora todo ouvidos. Só se sentiu menos patético qdo parou de duvidar das insanas avalanches não identificadas e das baboseiras virais.

Como diria Clóvis Bornai, retirando a fantasia após um desfile no carnaval: “ai, meus sais”. Na ignorância sintética de hoje em dia ninguém diria nada. Digitar-se-ia simplesmente...“ui”.

Por precaução apertou ainda mais o laço na cintura e, na cara dura, amarrou a noite escura com um nó cego de amor. Fechou a porta sem se dar conta q apenas as algemas presas no espelho da cama refletiam a luz do luar...


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Ela...



O q tinha de bela era a paisagem do olhar em tons de aquarela. O q tinha de leve flutuava no bailado flutuante da saia. Nos adornos dos contornos, na saliência dos entornos, q sempre iam além do q se poderia imaginar.

Assim como era lindo seu rosto sorrindo. Sentir su'alma projetada nas malas recheadas de figurinos. Personagens tecidos com ternura plissados nos vestidos. Lembranças da infância guardadas com o esmero de um passar de mãos no travesseiro, apenas para sentir seu cheiro antes de dormir.

O q existia de belo não eram gestos, cortejo dos afetos ou inesperados beijos vestais. O q tinha realmente de belo era poesia q não cabia em nenhum ponto final. Era ela, afinal...


domingo, 28 de outubro de 2012

Batuques ao léu... Devotos fins de tarde...



No fim da tarde, ao som de assobios, em saltos altos parava o trânsito com faróis desgovernados. Maquiagem docemente retocada no pequeno espelho. Desejos estufados na carne e um olhar aventureiro. Alma exposta no decote sem vergonha e desordeiro.

Vestida de fantasia despia o ar debochado de uma cidade sem freios nas mãos. Protegida dos maus olhados a saia rodava com ares de nobreza, sem pressa de se sentir presa ao imaginário do esperado sedutor.

Solta em seu rebolado as horas se perdiam em rimas. Corpo dobrado em esquinas e um sorriso de fazer inveja ao criador.


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

¿Por qué no te callas?...



Até hj não sei ao certo o q é mais ferino e mordaz:
o vai e vem do fecho éclair ou o zigzag do leva e traz... 






O primeiro fecho éclair foi inventado pelo engenheiro Whitcomb L. Judson, nos EUA, em 1891. Consistia em ganchos que se prendiam a pequenas argolas, utilizado em calçados e sacos de correio. Apesar de prático não era muito eficaz, pois abria com frequência. O protótipo do atual fecho éclair foi desenvolvido no começo do século XX pelo engenheiro sueco Gideon Sundback, q substituiu os ganchos e argolas de Judson por dentes metálicos.

¿Por qué no te callas? - Frase dita pelo rei Juan Carlos de Espanha ao presidente venezuelano Hugo Chávez durante a XVII Conferência Ibero-Americana, realizada na cidade de Santiago do Chile, no final de 2007. O motivo da "exaltação" do rei espanhol foram as constantes interrupções do presidente Hugo Chávez na resposta do primeiro-ministro espanhol José Luis Rodríguez Zapatero.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Trilha sem trilhos... Pouso sem repouso...



A vida seguia sem comando de ‘pause’ ou chance de rebuscas. Em meio à tanta correria, notas de uma sinfonia perdida no tempo compunham sons nos ventos, bagunçando ainda mais os pensamentos. Sentia-se cansado. Quem sabe um tempo de descanso ajudaria a encontrar uma solução.

Sem outra saída o corpo desaba no chão. A cabeça presa aos trilhos ouve o ruído pesado do trem. Embora não fizesse mais importância, pensou se ele estaria indo ou vindo. Se chorava ou seguia sorrindo.

Como em uma pintura de Vicent, o volume e o cheiro da fumaça deixavam o ar entristecido. Se não fosse tão pesado poderia dizer q o céu e inferno se confundiam de um jeito lírico. O paraíso diluido nos sonhos deixava a tela outra vez em branco.

No entorno do umbigo o parasita, invisível e faminto, corroia o elo q o prendia às suas origens. A pedra abrupta na flor da pele evocava o calor da carícia suicida. Sublime entoar de pássaros em uma alvorada sublinhada pelas incessantes incertezas do destino.

Tarde demais. Tdo o q restara de consciência era descrito de forma desordenada, em contos e cânticos engasgados de fadas...





Um tempo se passou... Como? O tempo não passa. Ninguém é capaz de prever o q se passa na mente do soldado exaltado, nem onde beira o inconsciente do adolescente assassino. Um juiz não revê sua pena. Ainda q valha a pena.

Enquanto teóricos exibem estatísticas, a população aguarda a vez nos corredores de suas mortes. Com sorte encontrarão seus nomes n’alguma lista...

Schindler, onde estás q não respondes?



domingo, 21 de outubro de 2012

Dita ave bendita...



De forma soberana sentou na beirada da cama. Taça de vinho na mão, da mesma cor do sangue derramado no chão. Sobre a cama rabiscos e escritos q jamais chegariam ao seu destino.

Teimosia e desatino. Desejos guardados a sete chaves. Sonhos desenhados na pele flor de algodão.

Já não contava a maneira q os dias passavam. Nem importava o qto era observada. De incerto modo até gostava. Modelada em tubinhos insinuava não ser de ninguém e ao mesmo tempo ser de cada um.

Verme maldito entranhado consumia frações de segundos de um mundo dividido. Com a cabeça no travesseiro enlouquecia no prazer de ser rainha e, ao mesmo tempo, escrava.

Sopros de brisa volátil. Voos nas vontades Von Teese. Vertigem desgovernadas. No remexer despudorado dos quadris noites de mil e umas cores. Amores serviçais redesenhados com dedicadas e delicadas mãos.

Adormecida e bela abria a janela e se despia em orações. Na via crucis de seu sacrifício, a fêmea revelava sua face burlesca diante do criado mudo.

Assim, dia sim, dia não, se debatia, à espera do castigo, à luz de severos e imponentes castiçais...









Dita Von Teese é uma atriz, modelo e artista burlesca norte-americana. Fetichista assumida, VonTeese é responsável pela reinvenção da estética pin-up dos anos 40 e 50 e do termo "burlesco" a arte ancestral do strip-tease.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Avenida Brazil...



Na beira da praia, diante das câmeras, a celebridade tira a blusa. A menina assiste a tdo inquieta e, confusa, desaba na areia sem saber quem lhe desvirginou.

Na tela a boca do lixo além de cult é bela. Sem efeitos especiais a cidade sente o cheiro da própria urina.

No bojo do côco a lama alimenta a dama. No fogo a trama se espalha em chamas. No palco o drama determina quem atravessa o hall da fama.

No ponto final da avenida a audiência reclusa assiste os últimos instantes da emoção. Com olhos vagos batem palmas, à espera de um deus q lhes sacuda.

No dia seguinte, como era de se esperar, nada acontece. Na porta da igreja o mendigo estende a mão para olhos cegos pela ferrugem da cruz.

Debaixo dos viadutos, beirando as calçadas sem fama, a cidade acorda sem saber, até hoje, para q se descobriu o brazil.

Stanislaw... Chama logo os nossos comerciais, por favor!





Sérgio Marcus Rangel Porto foi um cronista, escritor, radialista e compositor brasileiro conhecido por seu pseudônimo Stanislaw Ponte Preta. Boêmio, de um admirável senso de humor, fazia piadas corrosivas contra a ditadura militar e o moralismo social vigente. Foi o criador do FEBEAPÁ - Festival de Besteiras que Assola o País, uma de suas maiores criações.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Um tanto Odessa... Nem tanto odara...




O q tinha de oculto tinha o peso q carregava nos ombros.

Para seu assombro tdo o q dizia enxergar não acompanhava o movimento da fala propagada nas ondas. Sempre branda. Ao ponto de nunca precisar equacionar qq questão. Havia patetas de plantão para traduzir sua loucura. Razão pela qual tinha o hábito de nunca colocar um "x" nas questões. Embora, em certos aspectos vitupérios, acentuasse os circunflexos dos dossiês armados na fofoca.

Sabia ser impossível haver mágica q iluminasse seus túneis...

Na genial ótica do boçal é normal q mundo seja uma bola a rolar nas marolas. Ora bolas! Sapo não lava o pé para não molhar a moeda de troca escondida na cartola.

O q nunca deu para aceitava, mesmo de mão beijada, foi a forma pragmática de se prega na cruz filosófica de sua idiossincrasia bipolar.

Fazia festa no atacado. No varejo havia uma força q não era visível no beijo, mas constava do manejo no olhar marejado.

Um dia me disse q acreditava em milagres. Só não esperava q algum deus a livrasse de sua natureza, cuja maior beleza nunca ultrapassou nem passou de ilações...


O poeta russo Alexander Pushkin escreveu q Odessa era uma cidade onde "se podia sentir o cheiro da Europa".  







Odara - Da cultura Hindu, significa paz e tranquilidade. Em Iorubá significa belo, bom, bonito e positivo. 

Odessa - Considerada a mais judia das cidades do Império Russo, Odessa é uma cidade costeira ucraniana situada às margens do Mar Negro. Fundada oficialmente em 1794, depois de a Rússia anexar territórios anteriormente pertencentes à Turquia.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Cómo encarcelar a quien llama libertad?



A blogueira cubana Yoani Sánchez foi presa hoje, sexta,5, na província de Granma, local do julgamento de um dos envolvidos na morte do dissidente Oswaldo Payá.


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Diamantes são etéreos...



Quando amanheceu,
por medo ou ironia,
cobriu-se de poesia
para não se revelar... 


domingo, 9 de setembro de 2012

Sete de copas nas liras de um setembro...



Abro a camisa. De peito aberto contemplo a imensidão do precipício posto aos meus pés. Aos berros meu corpo urra na agonia de seus versos.

Sem salvo conduto e sem provocar abalos cínicos, a bala baila perdida de prazer, atingindo de forma contundente e avassaladora o objeto do desejo contido e sem endereço.

A pele suicida saliva a verdade em silencio. A felicidade, de forma lasciva, lambe a poesia oferecida em sacrifício e, sem prévio aviso, gruda um alvo explícito no meu peito. As promessas de vida? Ah! Estas se debatem no leito e partem em direção dos sedutores seios da morte.

Diante do portal meus olhos velejam o enfeitiçado colo da menina. No regalo de minh’alma, o brilho de suas retinas festejam, com calma ilibada, o toque de meus dedos em sua bunda.

No trepar dos sentidos, o diálogo incompreensível de um verbo indefinido, íntimo e pessoal.

Sem medo toco a outra banda da terra. A lira delira e enche a praça com o cheiro de seus blues, num prenúncio de q a independência é a mais pura declaração de morte.

No bolso da camisa um sete de copas. Na manga, uma esperança reluta, mas se entrega, mesmo sem saber para onde me levam os seus pontos cardeais...


domingo, 19 de agosto de 2012

Carrossel bordel... Bordados maltrapilhos...



Sem dar conta do giro dos girassóis subiu e desceu colinas como se fora um cavalinho emoldurado no carrossel.

Com razoável habilidade saltou sobre armadilhas, desvencilhando-se, a cada salto, dos anéis e das lembranças dos bordéis.

Naquele domingo a tarde era apenas um parque de diversão. Protegido das ventanias de ironias atravessou os percalços com seus pés descalços e, pela primeira vez, sentiu nos ombros o peso de suas medidas.

Sem outra saída chegou a pensar em pedir clemência. Alguém haveria de ter nas mãos a ciência. No entanto ponderou ao ver as sombras de sua independência nas ruínas do sobrado tombado pelo patrimônio amealhado de um jeito nada pudico.

Mesmo a contragosto preferiu guardar seu sorriso. Sem dizer nada prosseguiu a vida, sem marcar a hora, o dia, ou o q seria depois daquele dia de agosto...

E assim se foi... Assim, como a magia...


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

terça-feira, 31 de julho de 2012

Made in china...



Em moderato, um tanto parco, o pensamento ensaia uma canção e, passo a passo, sobre o passeio sai em seu encalço. Na esquina passa a vista nos jornais e revistas. Lê nas meias verdades vestígios de um poema grudado no corpo made in china.

Sem querer dançar na chuva entra no cinema sem lanterna. Lá dentro duas pernas desconversam desconexas. Vagarosamente replica e se enfia entre o dito e o não dito.

Na tela a atriz, solta em gemidos, enlouquece o diretor e a plateia. No ato, o ator adentra o quadro, de cara lavada, peito aberto e pau erguido.

Por um momento o silencio. No seguinte, por conseguinte, um ruidoso agito explode cada um em seu grito. Na coxia, entre fileiras, a atriz já nem lembra seu texto. Com efeito, como pretexto, esquece até quem era. Pudera, entre tantos cacos, ela, enfim, se encontrava diva.

Naquela noite e durante todos os outros dias, ela mudava o roteiro e mantinha o espetáculo, os aplausos e afagos. Com gestos suaves dividia su'alma entre as cortinas.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Entardecer em Nápoles...



Elegia o amor como uma criança escolhe um kinder ovo. Imaginava o conteúdo e seguia o impulso de ter saciada sua manifesta gula. No mundo de suas fantasias brincava de ser feliz e sonhava com as mil e uma noites q lhe cabia.

A olhar os bem passados vincos calculava estragos na roupagem alinhada do distinto. Com sua embalagem vistosa, adequadamente roliça, lambia os lábios nessa hora. Durante longas noites adormecia bela. Então suas carnes sonhavam lépidas no galope raçador de um manga larga. Assim alimentava a fonte dos infantis desejos.

Em uma velocidade não descrita pela escrita o tempo passou. Na noite de um tão sonhado luar coberto de mel, um sentimento horrível amargou seu coraçãozinho.

Para seu desespero o herói mascarado não tinha nada de ‘silver’. Aliás, mostrava-se mais com jeito de silvinho. Mas isso não foi nada comparado ao desespero de constatar q, por baixo de toda aquela embalagem, seu ‘kinder ovo’ não passava de um pônei ‘blau blau’.

Na hora pensou em se atirar da janela. Pensando ter encontrado um bom partido, acabou com o coração partido. O q lhe salvou foi uma garrafa de absinto e um tubo de super Bond, q o porteiro de nome jacinto lhe levou.

E não é q colou?

Naquela tarde, em Nápoles, enfurecida experimentou de tdo. Desde então, um tanto confuso, o ursinho ‘blau blau’ passa os dias deitado na cama, com olhos arregalados, contemplando a tdo, completamente mudo.







Kinder Ovo é um chocolate em forma de ovo com um brinde surpresa no seu interior.

Silver, cavalo usado por Lone Ranger na série ‘The lone ranger’. O personagem usava máscara para combater o crime e tornou-se popular pelo bordão ‘hi yo, silver!’

Tarde em Nápoles, de Paul Cézanne, pintor francês considerado ponte entre o impressionismo do século XIX e o cubismo do século XX.

domingo, 10 de junho de 2012

A lareira e a caixa de sapatos...



Diante da lareira contava estrelas e bordava indecências perfumadas com alfazema. Debaixo das mantas os pampas de um decote aveludado arranhava os mamilos enfeitiçados.

Esquecida entre cobertas a caixa de sapatos mantinha o cheiro de couro. 

Naquela noite sentou no sofá com a velha amiga entre suas pernas. Com a ponta dos dedos rascunhou sonhos,  repetindo carinhos lembrou de si mesma.

Sobre a mesa um envelhecido Bourbon dialogava com Carpinejar. Sem pestanejar abriu a caixa e espalhou seu amor em danças de ciranda pelo tablado do teatro ainda às escuras.

Assim louvou aos deuses e abraçou fantasmas. Derramando taças nas paredes e gritos no umbigo misturou o sórdido e o amoroso. Com eles embriagou o tempo e fez conchinhas no ar.

- Ei-la! Ei-la!

Repetia com as mãos estendidas e alma perfurada pelo clarão de um lampião somente visto no seu olhar.

Depois voltou a dançar, lançando sorrisos como se fossem anzóis de pescar felicidade. 

Naquele dia só adormeceu qdo caiu na tarde... 


quarta-feira, 6 de junho de 2012

A inflorescência das margaridas...



Sem fazer ideia de qta emoção cabia nas mãos espalmadas da poesia se deixou contaminar pela ternura dos enlouquecidos. Uma loucura jamais decifrada ou contida em livros, mas se mostrava oxigênio nas páginas abertas de suas indagações. Que não eram poucas.

Alimentava-se na fonte inexplicável da inspiração. Com a mesma voracidade se debatia nos paralelos da inquietação. Quantos bater de palmas pulsava em suas pétalas de borboleta ninguém jamais saberia. Nem ela mesma.

Sem procurar respostas acompanhou o tempo do verbo cruzar seu olhar masculino de menina e, com um brilho diferente na retina, abriu ainda mais as cortinas. Por egoísmo e amor próprio desnudou o juízo e o prazer sem pensar nas horas.

Qdo o meio dia despertou a realidade em suas vestes de senhora, escondeu nos seios as chaves de suas comportas. Fazendo a vidraça de espelho ajeitou com indisfarçável orgulho suas formas.

Nem sei deu conta do qto era curiosa e necessária a inflorescência das margaridas q brotava no parapeito de sua janela.






Por ser da família da Asteraceae, a margarida não é uma só flor, mas a reunião de muitas flores. Quando unidas têm funções biológicas específicas, como a de produzir néctar, atrair polinizadores, gerar e receber o pólen. No entanto se dividem para desempenhar suas diversas funções, num processo chamado de inflorescência. As flores periféricas encontram-se na fase feminina e recebem o pólen. As flores centrais ocupam a fase masculina q libera seu próprio pólen.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Trem das coisas...


Na primeira vez q ouvi a primeira manhã passava da meia noite. Cruzava os sinais vermelhos da angélica, com o coração acelerado e o vento soprando na contramão. Por fora meu pensamento tencionava o corpo ereto, dentro de um carro esfumaçado até o teto, e sem direção. Meus insanos galopes mosqueteiros ainda não entendiam os alucinantes contrapontos da consolação.

Na manhã do dia seguinte os jornais anunciavam a morte de Lennon. Desolação.

Desse dia em diante rascunho sobre bulas q reinventam sonhos. Vendo meu tempo e fatio meu corpo em migalhas, com as quais alimento meus passarinhos. Às vezes tento cantar, mas só cato ventos. Ventos q me levam e traem os pensamentos, tentando me levar de volta para uma casa q já não tenho.

Sem outra saída levo as mãos ao rosto e sinto rugas, abertas em blusas, soprarem nuvens q passam em asas além de minha imaginação. Sensação.

Na fluidez inóspita dos encontros, minha sombra me abraça e me convida para dançar. Nada é tão sólido q pese nos ombros. Nada é tão líquido q me afogue o peito. Na modernidade líquida de Zygmunt Bauman consumo minh’alma passageira num sobe e desce de ladeiras.

No alto mar de um cruzeiro sem fim, o aquaplanar lento e surdo da primeira manhã mastiga o fruto do meu absurdo. Solidão.






Lembranças compostas ‘Na Primeira Manhã’, música de Alceu Valença.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Curvas matreiras da cuia cunhã...


Bem de manhãzinha a dengosa nanã cunhava a cuia nas curvas da cunhã. Nas telas encobertas de Frida exibia as dores da vida com cores de um sangue ainda não derramado. Assim enxugava lágrimas descortinadas em seu semblante.

No fundo difuso da lata não dizia nada. Sequer disfarça a face traiçoeira dos pensamentos, em gemidos, entregues a açoites.

No apagar das luzes a senhorinha de fino trato descruzava as pernas na penumbra de bares com cheiro das ruas. Banhada pela claridade de tantas luas, fechava os olhos para melhor sentir os cachos de acácias roçando seu corpo.

No escuro cúmplice do olhar marginal, segredos guardados em compotas. Tomada pela fúria jogava moringas de rimas contra a parede. Tamanha ânsia de encontrar a liberdade no fim do túnel.

A senhorinha sabia q toda free way tem seus pedágios. Só não pagava pra ser. Sempre havia um deus pagão à mão.

Embriagada de silêncios dormia sorridente negrita. Parida de tesão afagava a cuia com as mãos, ouvindo a guitarra Yupanqui penetrar-lhe o templo. Ventos... Ventos... Os mesmos q lhe desprendia no tempo, quem sabe desvendaria o futuro.

Nas curvas da cuia cunhã a noite se perdia. O q evocava évora adormecia no esquecimento...





Atahualpa Yupanqui, compositor, cantor, violonista e escritor argentino, nascido em Buenos Aires, no dia 31 de janeiro de 1908. Flauteou-se em Paris, no dia 23 de maio de 1992, durante o intervalo de uma apresentação, em Lion.

Filho de pai ‘quéchua’ e mãe ‘basca’, na adolescência adotou o nome Atahualpa Yupangui, numa homenagem aos últimos governantes incas: Atahualpa e Tupac.

Atahualpa, na língua quíchua, significa 'o filho da terra q veio narrar'.

Nanã é o orixá das chuvas, dos mangues, do pântano e da lama. Senhora da morte, é responsável pelos portais de entrada (reencarnação) e saída (desencarne).

Cunhã, do tupi Kunhã, significa índia, mulher e companheira.


sábado, 19 de maio de 2012

Sólos, sueños y akiras...


Entrego os pontos e me apronto. Prefiro o desequilíbrio dos riscos q sobreviver, florido e adubado, em colorido vaso n’algum canto de varanda. No eixo da gangorra onde balançam ganhos e enganos, traço meus planos de olho na capacidade de voo do meu cinquentenário aeroplano.

Abro a janela da cabine onde me comando e dou minha cara ao frio e a tapa. Se o tempo passa num voo impreciso, sinal q é preciso pisar no lado mais sólido de minhas nuvens.

Sigo a verdade giratória do farol q ilumina as terras onde habitam braços do meu mar. Prossigo e persigo a simplicidade de um verso singular sem idade e os sentidos do meu corpo, por inteiro, enterrados em canteiros, onde, enfim, respiro o possível brotar do meu cheiro.

Nada se mostra tão infinito, q comporte a inexplicável grandeza da vida no fundo de um poço. Nem é suficientemente forte, q suporte o insustentável peso da leveza de um ser feliz.

Akira, meu sonho não acabou...






Ran | ©Kurosawa Production Inc. Licensed exclusively by HoriPro inc.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Anáguas análogas... Dom de viver...


Ao caminhar pelas lembranças, com a alma dividida, esfregou o corpo na cama. De uma forma contundente sentia um fio de outono lhe cortar os pulsos. Por impulso beliscou a própria pele e esboçou um sorriso por não estranhar a dor como sinal de vida. Com os desejos em punho tocou suas mãos na chama.

O primeiro instante lhe pareceu distante. No seguinte encaixou suas pernas na música q o corpo cantava. Dançou. Dançou mto. Dançou com atrevida delicadeza sobre a linha da navalha q descascava cada um dos sentidos. Misturou heavy metal às sonoridades de sua veia nativista. Assim adubou seu quintal com ternura e sons da mata, enquanto louvava as perdidas atlântidas de su’alma litoral.

"Graças quero dar ao divino labirinto dos efeitos e das causas, pela diversidade das criaturas que formam este singular universo, pela razão que não cessará de sonhar, pelo amor que nos deixa ver os outros, pela linguagem que pode simular sabedoria, pelo hábito que nos repete e nos confirma como um espelho...” 

Apesar das asas não depositar sua fé em anjos e nem frequentar roda de santos, não causou espanto benzer o corpo na beira do rio. À sombra da frondosa árvore se sentiu fruto e se ofereceu em sacrifício. Sabia ser a hora de germinar.

Na defesa capital de tantas ironias, cristãos e mulçumanos se esganam em nome do vácuo. A arena das fantasias afunda na velocidade dos dias, revelando um labirinto de regras inúteis e confusas.

“Graças quero dar pela manhã que nos depara a ilusão de um princípio, pela noite, sua treva e sua astronomia, pelo valor e a felicidade dos outros, pelos íntimos dons que não enumero, pela arte da amizade, pelo fato de que o poema é inesgotável e se confunde com a soma das criaturas e jamais chegará ao último verso, e varia segundo os homens."

No circo dos horrores medusas rasgam suas blusas. Do cérebro emanam duendes montados em serpentes. O corpo manifesto salta além da fala e da genitália. Salta com sua vara sobre valas onde mortos disputam a posse de seus jazigos.

No meio do salto, a girar sem sobressaltos na roda gigante, soltou o dorso na saia rodada. Sem dizer nada, ventos assobiavam entre anáguas, desaguando em tdo o q valia a pena viver.





Inserção ondular e atrevida do “Poema dos Dons”, de Jorge Luiz Borges

Sessão contínua...

Na cena do cinema
Um amor de teatro
Sorrisos na coxia
Entrecoxas tablados

terça-feira, 15 de maio de 2012

Chuva e lavas... Terra à vista...


Remeto-me por impulso no vôo cego. Mesmo sem endereço enxergo o tamanho da dor e o tanto q a esqueço ao me deparar com a flor na cor q mereço. Qdo a luz do dia se aproxima adormeço.

No meio do sonho abro os olhos e a noite. As pernas da sentinela são belas e ditam a sina e a rima. Com as mãos nuas seguro forte as crinas da égua selvagem e percorro seus mapas. Semeio a terra. Cravo a pele e cavo tesouros onde ninguém mais vê. Bem-te-vi ao sabor dos beijos e nas labaredas de um vulcão a expelir dilúvios.

No próximo instante atravesso a ponte dos sonhos. No brilho q salta dos olhos sinto o qto a lua fica alva como a neve depois de um banho de chuva.

domingo, 13 de maio de 2012

Cascavilhando...


Despudoradamente escrevo no mesmo colo aceso em q te descrevo. Conjugo o corpo. Disseco meus verbos. Verso sobre o q mastigo, salvo o juízo, sem medir a extensão de cada palavra.

O espírito flutua displicente sobre as ondas q se agitam à minha frente. Vens rente e me serves nas bandejas o q te serve. Percebo o qto as palavras são fragmentos de figurinos desenhados nos murais. Então escorrego pela métrica nada hermética da víscera q me conduz para dentro do texto.

Aqui dentro balbucio pensamentos e percorro, no mesmo tempo do beijo, a extensão do corpo e do tempo q não te vejo. Verso o silêncio.

Sem martírios e nem gaiolas alimentamos pássaros no compasso e bater nas palmas de nossas mãos nada donzelas.

Longe das notícias o estado do Maranhão agoniza junto com seu Imperador. Mas não sentem a mesma dor. A perda de um é a esperança do outro. Nas decantadas divisas oceanos separam mto mais q pessoas. Ato contínuo q o pregador vivaldino lucra ao chamar de destino  Ao sentir na carne o sabor mecânico da laranja, provamos com gana a extrema de unção de uma louca comunhão, q justifica, mas não explica os impropérios e os quilometricos privilégios.

Assim caminha a assustada desumanidade, sem q ninguém faça nada para derrubar os invisíveis muros q protegem a sala de estar dos nossos bipolares Berlins.




Cascavilhar: Procurar algo q se encontra misturado e oculto... Entre outras coisas...

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Árias Ismálias...


Ismália. Loucura cega
Fornalha da entrega sem pudor.
Serva sem compromisso.
Teu feitiço corre nas veias
em assumidos riscos.

Carne estufada  brilhante
beduíno em chamas. Em tua cama
a tragédia anunciada.
A alma na beira do poço
reflete o esboço de teus anais

Dança banhada de chuva
Dorso a provocar luar.
Emerges das águas em q submerges
Ondas borbulham no seio de teu mar
duendes e fadas a te aninhar

No porão os fantasmas se agitam
e esboçam uma rebelião.
Lambes tuas tantas mortes e percorres
altiva cada uma de tuas missões.
Sem ensaio sobes no tablado

Refeita do improviso reverencias,
com inesperado sorriso, a vida
Em seu monólogo desesperado
desejas as falas das mãos
silenciosas do teu Senhor. 





'Ismália' é um poema do mineiro Alphonsus de Guimaraens (1870-1921). Representa a dualidade entre o plano físico e a alma. A loucura e o sonho, um dentro do outro. Levada pela loucura Ismália entra num mundo de sonhos, atravessando a fronteira q separa a vida da morte.

domingo, 29 de abril de 2012

Faróis acesos...

De pé deparo
Branca dendê
Negra sem Lee
Recheio avoado
Voilá, rebolado!
Evoé! Voyeur...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Saudações...

Pássaro solto
Sobrevoos alegres
Loucos paralelos
Parafusos confusos
Lodos no porto

Nas curvas curvo
No fundo do mar
Pinto negro polvo
Corto impulsos
Curioso absolvo...



Saudades Egberto!

sábado, 21 de abril de 2012

Ótica simbiótica...

Tdo tão silencioso...
Meu corpo se veste
Com a mesma saudade
Que me desnuda

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Bah!...

Que coisa tão boa
Beber a garapa
Da guapa na garoa...

quarta-feira, 11 de abril de 2012

trinando...azul... crinando...


Viver é uma grande bobagem
Uma questão de bordas, bordados e abordagem.
À queima-roupa tirou a roupa e ficou nu.

No cruzeiro olhou ao sul na paisagem
com ar de vadiagem meditou sobre o tempo.
Depois esbravejou: Louco é te levar a sério...



Thanks Baby, pelo tinindo trincando...

terça-feira, 3 de abril de 2012

Estratégia de arte... Lua em Marte...


Vibro
Vivo
Viço
Corpo
Zen, hein?!
Equilibro

Atiro
Arco
Atiço
Ofício
Sem, hein?!
Juízo




Enquanto na terra se ladra estratégias, em marte... Hein?! Sobrevive-se sem mártires...

quinta-feira, 29 de março de 2012

Auto-refrato...


Eu feminino traço relativo
Mastigo indefinido o substantivo
Eu masculino plural

Eu corpo nu costurado
Verso imperativo o rastro
Movediço vento reverso letal

Eu léxico esconjuro o artigo
Astuto conjugo o tempo no grito
Com o Augusto verbo Boal





Augusto Boal (1931/2009), dramaturgo e ensaísta brasileiro, fundador do Teatro do Oprimido. Segundo ele, o Teatro do Oprimido é o teatro no sentido mais arcaico do termo. Todos os seres humanos são atores - porque atuam - e espectadores - porque observam. Somos todos 'espect-atores'.

sexta-feira, 23 de março de 2012

A noiva de Almodóvar...



Cinzas pastéis beiravam ribeiras com seus cantos de mangue e cheiro da fêmea. Com lábios oferecidos ela desnudava sorrisos e encontrava seus sentidos nos despidos brocados de bilro.

Nada lhe parecia estranho na noite da estrela D'alva. Em sua volta serafins dançavam e cantavam bêbados no beco de suas quarentenas. Na flor da sua pele exala o ardor do seu perfume d’alma.

Cercada por roxas tulipas ela exibia suas coxas pelas docas. Nem importava com a chama q inflamava suas acesas ancas. Nada disso contava. Nem mesmo qdo lhe chamam de 'putana' ou Dama de lotação.

No seu olhar residia um sonho. Em suas veias fervilhavam prismas. Líricas sensações.

Sentindo-se pronta percorreu a nave num bailar suave, sem saber em q parte de seu corpo batia tanto coração...








Modelo: Luci Braga / Produção: Nalva Melo/Café Salão – Ribeira – Natal / Ilustração composta a partir de imagem de Tarcio Fontenele

sexta-feira, 9 de março de 2012

Provérbio ao relento...

Em terra de cegos é melhor abrir bem os olhos.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A mulher...



Sim, não há poema q exprima,
Por mais q se lapide a rima
Numa mulher não compreende
Nem cabe uma única percepção
O q torna impossível qq tentativa
De uma exata definição
Para este ser q ovula e carrega,
Em si, o dom da evolução





Dia 8 de março. Dia Internacional da Mulher
Pensando bem, não à toa seu dia é o infinito...

O bonde...


O bonde ia, ia, ia
Subia e descia
Guiado pelo anzol
Brilhante do sol
A lhe dar bom dia

Qdo o sol adormecia
Junto com a tarde
Ele vinha, vinha, vinha
Até encontrar o luar
No alto da noitinha

domingo, 4 de março de 2012

Clave de sol...



Desamasso o pedaço do papel almaço onde descrevo apaixonadas elegias a tua febril poesia.

Com meus pés descalços aperto os laços e saio em teu encalço. De um só gole tomo frenético o sumo de teu corpo em alvoroço.

Sem esperar a hora do almoço te janto inteira, até a sobremesa, na mesma clave de sol.

Não sei com q anzol fisgastes meus desejos, mas sei q tens a chave de meus segredos...





Montagem sobre fotografia de Katya Floriani, a quem agradeço.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Galopeira...

Teus colares
Pratas cavalos
Arreios alheios
Luz no escuro
de meu verso

Tudo q cobres
Meus olhares
redescobrem
lugares lunares
a te galopar





Galope: A carreira mais rápida do cavalo. A parte superior do mastro q recebe a borla. Dança rodada em ritmo acelerado

Absoluta cegueira...

O certo é cego
É provável
Nem te enxerga
O mito do mto
É improvável
Quase nunca
É provado
É certo, o certo
Não se enxerga

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Saias cirandas... Árias de Iaras...



Nas barras de sua saia alegres Iaras exalavam perfumes da fêmea de quadris assanhados e encantadores rebolados a dançar ciranda.

Com olhos fixos nas coloridas fitas lascivas, guerreiros faziam zig-zag e tocavam tambores no balanço de seu mar. Entregue e escravos derramavam-se em desejos com seus pés presos nas areias, entoando cânticos de amores para sereias de um além sonhar.

Se prestassem mais atenção veriam q no fundo do mar brilhos centelhas acendiam fogueiras nos olhos de um Zeus devasso, náufrago e inteiramente mundano.

Ao ouvir sua voz vinda de algum luar, ela girou suas saias de uma forma ainda mais obscena, estendendo seus braços com desejos q a fizeram flutuar sobre o mar. Nos apelos de seus pelos se podia sentir o desespero de seu corpo a clamar:

- Venha meu rei! Mas venha da forma mais impura. Venha q eu me quero sua. Veja debaixo da minha saia o tanto q a alma arde desnuda. Venha sem demora q a sede me devora. Venha para entoarmos louvores com teu cajado a me singrar. Venha antes q desperte a aurora. Faça teu reinado nos terreiros de meu congá.

Qdo o dia amanheceu, sabe-se lá o q ocorreu. Para tristeza dos desolados guerreiros pedaços de sua saia foram vistos à deriva. Levados pelas correntezas boiavam sem rumo longe do quebra-mar. Com seus pés ainda presos na areia da praia, em silêncio eles tocavam surdos lamentos com seus tambores e faziam oferendas à espera de outra vez vê-la cirandar.

Em noites de lua, no entanto, era possível se avistar borbulhas emergindo do fundo do mar. Assim como era possível sentir o seu perfume a se espraiar pela costa, trazido pelas ondas e ventos q sopravam na preamar.




Ciranda é uma dança originária da ilha de Itamaracá, Pernambuco, no nordeste brasileiro.
As mulheres dos pescadores formam uma grande roda na beira da praia para dançar e cantar, enquanto esperam seus homens retornarem do mar.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Um blues vestido de azul...


A verdade existe sem endereço certo. Na maioria das vezes atravessa o tempo em silencio sem chamar a atenção. Seu destino é percorrer o mundo sem a pretensão de desvendar o pq do grande segredo da vida ser a morte. Pensando bem, talvez o único mistério resida no abismo q criamos para distanciar os homens dos deuses de nossa imaginação.

Um dia me encontrava sentado à beira de uma calçada, qdo ela surgiu vestida de azul e sentou ao meu lado. Lembro q estranhei encontrá-la sozinha àquela hora da noite. Ela apenas sorriu e disse: - Não estou sozinha. Por acaso não está aí?

E não disse mais nenhuma palavra.


Nenhum questionamento cabia naquele momento. Nenhuma inquietação povoava os sonhos ou alimentava qq tipo de ilusão. Tudo se fazia adornado com uma inexplicável e límpida percepção.

Eu q me julgava conhecedor de tantas coisas na vida, pela primeira vez podia sentir o brilho de um olhar tão de perto. Aquele olhar q emergia na escuridão da noite me fazia contemplar a essência do meu verbo em um estado presente de pura iluminação.

Tudo se reveste de uma clareza absoluta qdo se busca enxergar tão somente o q temos à frente. De nada adiantaria pensar nos resultados, sem q houvesse dado o primeiro passo em sua direção.

Não sei por qto tempo permanecemos ali. As horas pareciam não ter um tempo logicamente definido. Nada era definitivo, mesmo sendo tdo tão preciso. Até a maneira como ela se levantou e vagarosamente passou as mãos pelas coxas, ajeitando o seu vestido feito de um azul q até então ninguém jamais havia descrito.

Não queria q ela fosse embora, embora soubesse q nunca mais ela sairia de mim. Queria saber o q haveria de fazer para encontrá-la novamente. Deveria haver algum jeito ou alguma pista a ser seguida. Meu medo era q sumisse sem deixar rastro e desaparecesse para sempre da mesma maneira q surgiu. Exatamente como a vida muitas vezes se mostra sem lógica. Sem qq explicação nos atira no chão e nos faz olhar para o próprio umbigo a procura de um eixo, sentido ou razão.

- Aonde vc vai? Perguntei...

- Vou respirar a vida por ai. Saltar tantas e qtas linhas houver no horizonte. A estrada é longa e esse mundo já não me engana. Vc vê esse meu jeito sorridente de criança, mas saiba q ele esconde as marcas de uma vida. Com o tempo tbém aprenderás a voar. Apenas tenha o cuidado para suas asas nunca ultrapassarem o tamanho de sua imaginação.

Não fique triste e nem parado. Procura caminhar um pouco. O sol não demora a nascer. Quem sabe descubras onde ele guarda o seu brilho. A vida é um sopro silencioso em nossos ouvidos. Presta bem atenção e descobrirás os caminhos q haverás de seguir e o q é preciso fazer para te alcançar.

Fiquei olhando ela sumir nas penumbras. Segui-a o máximo q minha miopia permitia. Mesmo assim pude ver o sobrevoar das barras de seu vestido nas beiras das calçadas, como a reverenciar com gestos bailarinos a brisa q refrescava os últimos suspiros daquela madrugada.

De onde eu estava me limitei a sorrir, vendo o seu bailado compor diante de meus olhos o q havia de melhor no meu mundo.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Um estado de paixão...



Errante ou transeunte, por mais distante q vá o apaixonado coração navegante, jamais se esquecera de ti. Porto de alegre nascente a banhar teus caquis e Itaquis. Dos parques floridos a ouvir canções de teus tantos kleitons e kleidis. Porto q se descobre alegre e se renova nas histórias presas nas paredes da sala. Do perfume q exala em amores soltos, q vem e vão, sem sair daqui.

Porto de alegres cheiros andinos a cruzar as fronteiras de tuas noturnas ruas musicais. Porto de uma arquitetura q se desnuda alegre nos abraços do sol e, em dias de lua, saboreia cachos de uva nas pernas cobertas de rendas das prendas, roliças e movediças, q se instalam como uma luva na tarde do meu olhar.

Porto das frontes alegres erguidas com orgulho q vai além do beijar escudos colorados e imortais. Porto q traço alegre numa bela encantadora imagem. Porto inspirador de minha profana vadiagem. Porto q me lança num contemplar magias de tuas poesias estendidas nas seculares varandas. De cores a borboletear em viravoltas nas mirabolantes rotas de tuas missões.

Porto alegre. Um estado híbrido. Um jeito lúdico de se sentir os laços da paixão.


sábado, 25 de fevereiro de 2012

1/3 é quase tdo...



Impressionada
Serviu-se extasiada
Sem ter como conter
Segurou um terço

Ajoelhada
Não disse nada
Levantando a saia
Revelou as coxas

Desbocada
Não se fez de rogada
Como não sabia rezar
Lambeu o capeta

Até seu coração
Que julgava ser ateu
Mesmo sem acreditar
Tbém se deliciou





Na última estrofe ouve-se sutis sonoridades da canção "Coração ateu", de Sueli Costa...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Catherine voilà... La belle Beauvoir...



Castiga-me de uma forma definitiva para q me sinta cativa. Repetia sem pudor, dia após dia, a altiva donzela nos finais de tarde.

Olhando longe se desnudava na poesia, suplicando ao sol o calor capaz de enlouquecer o bruto amor q inundava o corpo e lhe jogava, à mercê de si mesma, na distante paisagem.

Um dia - e só ela só sabia o qto esperava - cansados de tanto fazer doer, os medos dariam ouvidos à sede aguda q secava suas carnes.

O corpo em febre devorava o verme grudado nos verbos. Vontades q fluíam ardentes, em árias exaustivamente repetidas, e corroíam renitentes, íntimas e diárias. Insuportavelmente necessárias.

No seu espelho duas mulheres seminuas. Um olhar insaciável e dividido. Um mastigar sabores q deixava suas cores intrigantemente incompreensíveis. Sem pensar em estéticas deixava seu mundo as avessas, apenas para perceber o tanto q tbém era cinza.

Assim, na curvatura dos dias intercalava com desenvoltura suas partituras. Cada vez mais visível, com uma grandeza imprevisível, em seus lençóis os desejos descobriam a simplicidade capaz de preencher tantos vazios.







Em sua carreira como atriz Catherine Deneuve compôs uma imagem de símbolo sexual frio e inacessível. Seu personagem mais emblemático foi no filme “Belle de jour“, de Luis Buñuel.

Em uma cena do filme ela passeia com seu marido, qdo este a ordena q desça e pede aos cocheiros q a chicoteiem. Naquele momento, em um gozo incontrolável, ela experimenta o submundo de suas fantasias, misturando submissão, violação e um poder sádico q sabia possuir sobre os homens, ali representado pelo seu marido.

Simone de Beauvoir foi uma escritora e filósofa francesa. Ao se unir intelectualmente a Sartre vivenciou uma relação polêmica e fecunda, onde puderam exercer suas liberdades individuais em uma vida em conjunto.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O lado surdo da nudez...



No meio do entulho, tentando respirar no casulo, a larva corrói a casca. Do outro lado da lata a palavra de boa lavra, sem estranhar as retinas, se entranha nas pernas da menina, incendiando a fala libertina.

O ego refestelado se agarra em suas crinas. Empinando o rebolado pisa a ponta dos pés num samba afinado. À vontade se desgarra no balanço da saia e vai flutuando em indóceis corredeiras. O sorriso em q se esbalda sequer resvala na pontiaguda hipocrisia das pedras cravejadas nos dedos das damas olheiras.

Nos dias de domingo, mal tocava o sino, a vida despertava transparências no jardim da praça. Com floridos brincos exibia sorrindo seus coloridos dotes descortinados com a devida eloquência, fomentando indecências e sutis saliências, até, no mais embrutecido espectador.

Como se dançasse valsas se enche de graça com a falta de decoro do assanhado besouro. No brilho de tantos pensamentos endiabrados seu corpo faz coro. Àquela hora o q mais queria era desbravar as trilhas q a levaria ao templo onde guardara seus, até agora, intocáveis tesouros.

Havia desejos há mto perdidos no tempo. Tempo em q receava o doce sopro dos ventos, qdo se guardava, por não saber como conter vivia a proteger suas asas.

Os organismos vivos se completam por simbiose e não por osmose. No mel da colmeia a rainha faz festa e lubrica com sinais q levam a sua rubrica. Sem dar bola para os zangões ela implora a carícia hábil e canina da boca faminta do lobo. No jugo da jugular delira tanto q pressente o perfume dos sonhos q trazia desde adolescente.

Agora não se julga mais insensata. Cansada, talvez. Sabe o qto a fêmea q conduzia su’alma se embriaga com o perfume de rosas. Do tanto q ascende formosa no talo q apalpa e q se instala num entoar aflitos gemidos, sentindo correr nas veias o risco de se perder nos carinhos de tântricos espinhos.

No outro lado da lua a lagarta sucumbe ao rasgar o q lhe resta de pele. Ninguém percebe, mas, antes de partir ela sorri ao ver su’alma leve e nua sair por aí a colorir as ruas com as mesmas tonalidades de seu imenso prazer em poder voar.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Trem das doze...


Take 01 / cena única...

Sem receita certa a seta aponta retesa a linha reta e segue em sua direção. O maquinista só enxerga por uma vista. A passageira elegantemente sentada de pernas cruzadas arregala os olhos sem dar na vista e abre um sorriso safado ao sentir o tanto q seu rabo belisca.

Apagam-se as luzes rapidamente...



Ciclos, vícios e pânicos circenses



Pintamos milagres na páscoa pisando em ovos
Com festas resplandecentes nos sentimos o tais
Nada anormal no Natal darmos-nos presentes
Mas o q surpreende é - ajoelhados - acreditarmos
E até mesmo jurarmos sermos todos cristãos

Santa ilusão. No lava pés protegemos nossas mãos
Comungamos anos após anos e, acredite se puder,
Penitentes jejuamos, mas, salvo raríssimos enganos
Fechamos os olhos qdo alguém nos estende a mão

Nada disso importa, pois nos soltamos em artifícios
Postos na mesa, com fogos saudamos o novo engano
Para esquecermos-nos de tdo, sem nenhum sacrifício,
Nos primeiros acordes dos clarins de um carnaval




Valha-me meu santo profano metido em tantas heresias, como somos legais! Olhando assim, não é de estranhar q as pessoas na sala de jantar continuem ocupadas em nascer e morrer. E o q é pior, sem saber o q fazer. Resta esperar q a serpente venha e quebre de uma vez a casca do ovo...


Do inicio ao fim uma sintomática sonoridade da música “Panis et Circencis”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O dia em q falei com as flores...



Olho demoradamente o extenso e escuro corredor q tenho à minha frente. Chama a atenção o fato de tantas lâmpadas apagadas. A única acesa vem de uma placa no final do corredor avisando q estou “sem saída”. Respiro fundo na tentativa de aparentar uma calma q na verdade não sinto.

Como um Hitchcock registro a tdo em câmara lenta e adentro a penumbra guiado pelo cheiro do oasis q acredito existir no lado de lá.

Os ventos correm soltos entre os maciços e gigantescos paredões q margeavam a rua das flores. Apressados. Enjaulados. Agitados. Delicados. Era praticamente impossível imaginar a variedade de perfumes q, vindo de todos os lados, circulam nos pulmões.

Durante incontroláveis oito minutos tento enxergar o número nas portas q passam. Paro no número oito. É curiosa maneira q sempre fui atraído pelo infinito contido nas circunferências de sua imagem.

Cada um carrega sua história em possíveis lembranças contidas nos frascos guardados ao alcance da mão, n’algum lugar da emoção.

Procuro respirar fundo, mas o coração desobediente insiste em seu bater desordenado.

Sem hesitar toco a campainha q se faz de surda e se recusa a chamar. Toco outra vez, mais uma vez e nada acontece. Desisto da campainha e bato na porta. Uma. Duas. Três vezes. Qdo já não esperava por alguma resposta ouço o barulho de uma chave girar mansamente no lado q ainda não vivi.

Com o passar dos anos aprenderam a conviver em harmonia. Não se sabe por receio do confronto evitavam expor suas angústias em um explícito encontro. Contudo, não fosse o estranho hábito de nunca olharem para os lados, poder-se-ia dizer q conseguiam conviver com mútuo respeito.

Após o ruído de chave a porta continuou em silêncio e fechada. No mesmo compasso de minha respiração movimentei o trinco. Abri, entrei e fechei rapidamente. Tdo ainda é escuro. Somente a respiração continua a ditar meu ritmo. Agora outra, bem baixinho, parece tbém me ouvir do canto onde está.

Algumas vezes pareciam sentir-se incomodados, mas nada diziam. Mantinham-se no silêncio de seus ritmos. Sabiam q somente o equilíbrio lhes possibilitaria manter a perspectiva de sobrevivência. Tinham plena consciência do q eram e da necessidade em viver cada instante do q ainda atravessariam.

Lembrando a placa sem saída q vi no final do corredor sigo em sua direção. Sem saber percorro o caminho dos reis e escalo as dunas do meu armagedom. Um agradável cheiro de alfazema me dá boas vindas. Vendo as portas abertas derramo oito beijos q lambo com a língua assanhada. Quase ao mesmo tempo adentro com a minha verdade abraçando a vida.

Lá fora a rua das flores perpetuava-se em múltiplos olores. Apesar do outono e do longo inverno q teriam de atravessar, as essências do q se continha festejavam com alegria a primavera q um dia haveria de chegar.