quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Saias cirandas... Árias de Iaras...



Nas barras de sua saia alegres Iaras exalavam perfumes da fêmea de quadris assanhados e encantadores rebolados a dançar ciranda.

Com olhos fixos nas coloridas fitas lascivas, guerreiros faziam zig-zag e tocavam tambores no balanço de seu mar. Entregue e escravos derramavam-se em desejos com seus pés presos nas areias, entoando cânticos de amores para sereias de um além sonhar.

Se prestassem mais atenção veriam q no fundo do mar brilhos centelhas acendiam fogueiras nos olhos de um Zeus devasso, náufrago e inteiramente mundano.

Ao ouvir sua voz vinda de algum luar, ela girou suas saias de uma forma ainda mais obscena, estendendo seus braços com desejos q a fizeram flutuar sobre o mar. Nos apelos de seus pelos se podia sentir o desespero de seu corpo a clamar:

- Venha meu rei! Mas venha da forma mais impura. Venha q eu me quero sua. Veja debaixo da minha saia o tanto q a alma arde desnuda. Venha sem demora q a sede me devora. Venha para entoarmos louvores com teu cajado a me singrar. Venha antes q desperte a aurora. Faça teu reinado nos terreiros de meu congá.

Qdo o dia amanheceu, sabe-se lá o q ocorreu. Para tristeza dos desolados guerreiros pedaços de sua saia foram vistos à deriva. Levados pelas correntezas boiavam sem rumo longe do quebra-mar. Com seus pés ainda presos na areia da praia, em silêncio eles tocavam surdos lamentos com seus tambores e faziam oferendas à espera de outra vez vê-la cirandar.

Em noites de lua, no entanto, era possível se avistar borbulhas emergindo do fundo do mar. Assim como era possível sentir o seu perfume a se espraiar pela costa, trazido pelas ondas e ventos q sopravam na preamar.




Ciranda é uma dança originária da ilha de Itamaracá, Pernambuco, no nordeste brasileiro.
As mulheres dos pescadores formam uma grande roda na beira da praia para dançar e cantar, enquanto esperam seus homens retornarem do mar.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Um blues vestido de azul...


A verdade existe sem endereço certo. Na maioria das vezes atravessa o tempo em silencio sem chamar a atenção. Seu destino é percorrer o mundo sem a pretensão de desvendar o pq do grande segredo da vida ser a morte. Pensando bem, talvez o único mistério resida no abismo q criamos para distanciar os homens dos deuses de nossa imaginação.

Um dia me encontrava sentado à beira de uma calçada, qdo ela surgiu vestida de azul e sentou ao meu lado. Lembro q estranhei encontrá-la sozinha àquela hora da noite. Ela apenas sorriu e disse: - Não estou sozinha. Por acaso não está aí?

E não disse mais nenhuma palavra.


Nenhum questionamento cabia naquele momento. Nenhuma inquietação povoava os sonhos ou alimentava qq tipo de ilusão. Tudo se fazia adornado com uma inexplicável e límpida percepção.

Eu q me julgava conhecedor de tantas coisas na vida, pela primeira vez podia sentir o brilho de um olhar tão de perto. Aquele olhar q emergia na escuridão da noite me fazia contemplar a essência do meu verbo em um estado presente de pura iluminação.

Tudo se reveste de uma clareza absoluta qdo se busca enxergar tão somente o q temos à frente. De nada adiantaria pensar nos resultados, sem q houvesse dado o primeiro passo em sua direção.

Não sei por qto tempo permanecemos ali. As horas pareciam não ter um tempo logicamente definido. Nada era definitivo, mesmo sendo tdo tão preciso. Até a maneira como ela se levantou e vagarosamente passou as mãos pelas coxas, ajeitando o seu vestido feito de um azul q até então ninguém jamais havia descrito.

Não queria q ela fosse embora, embora soubesse q nunca mais ela sairia de mim. Queria saber o q haveria de fazer para encontrá-la novamente. Deveria haver algum jeito ou alguma pista a ser seguida. Meu medo era q sumisse sem deixar rastro e desaparecesse para sempre da mesma maneira q surgiu. Exatamente como a vida muitas vezes se mostra sem lógica. Sem qq explicação nos atira no chão e nos faz olhar para o próprio umbigo a procura de um eixo, sentido ou razão.

- Aonde vc vai? Perguntei...

- Vou respirar a vida por ai. Saltar tantas e qtas linhas houver no horizonte. A estrada é longa e esse mundo já não me engana. Vc vê esse meu jeito sorridente de criança, mas saiba q ele esconde as marcas de uma vida. Com o tempo tbém aprenderás a voar. Apenas tenha o cuidado para suas asas nunca ultrapassarem o tamanho de sua imaginação.

Não fique triste e nem parado. Procura caminhar um pouco. O sol não demora a nascer. Quem sabe descubras onde ele guarda o seu brilho. A vida é um sopro silencioso em nossos ouvidos. Presta bem atenção e descobrirás os caminhos q haverás de seguir e o q é preciso fazer para te alcançar.

Fiquei olhando ela sumir nas penumbras. Segui-a o máximo q minha miopia permitia. Mesmo assim pude ver o sobrevoar das barras de seu vestido nas beiras das calçadas, como a reverenciar com gestos bailarinos a brisa q refrescava os últimos suspiros daquela madrugada.

De onde eu estava me limitei a sorrir, vendo o seu bailado compor diante de meus olhos o q havia de melhor no meu mundo.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Um estado de paixão...



Errante ou transeunte, por mais distante q vá o apaixonado coração navegante, jamais se esquecera de ti. Porto de alegre nascente a banhar teus caquis e Itaquis. Dos parques floridos a ouvir canções de teus tantos kleitons e kleidis. Porto q se descobre alegre e se renova nas histórias presas nas paredes da sala. Do perfume q exala em amores soltos, q vem e vão, sem sair daqui.

Porto de alegres cheiros andinos a cruzar as fronteiras de tuas noturnas ruas musicais. Porto de uma arquitetura q se desnuda alegre nos abraços do sol e, em dias de lua, saboreia cachos de uva nas pernas cobertas de rendas das prendas, roliças e movediças, q se instalam como uma luva na tarde do meu olhar.

Porto das frontes alegres erguidas com orgulho q vai além do beijar escudos colorados e imortais. Porto q traço alegre numa bela encantadora imagem. Porto inspirador de minha profana vadiagem. Porto q me lança num contemplar magias de tuas poesias estendidas nas seculares varandas. De cores a borboletear em viravoltas nas mirabolantes rotas de tuas missões.

Porto alegre. Um estado híbrido. Um jeito lúdico de se sentir os laços da paixão.


sábado, 25 de fevereiro de 2012

1/3 é quase tdo...



Impressionada
Serviu-se extasiada
Sem ter como conter
Segurou um terço

Ajoelhada
Não disse nada
Levantando a saia
Revelou as coxas

Desbocada
Não se fez de rogada
Como não sabia rezar
Lambeu o capeta

Até seu coração
Que julgava ser ateu
Mesmo sem acreditar
Tbém se deliciou





Na última estrofe ouve-se sutis sonoridades da canção "Coração ateu", de Sueli Costa...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Catherine voilà... La belle Beauvoir...



Castiga-me de uma forma definitiva para q me sinta cativa. Repetia sem pudor, dia após dia, a altiva donzela nos finais de tarde.

Olhando longe se desnudava na poesia, suplicando ao sol o calor capaz de enlouquecer o bruto amor q inundava o corpo e lhe jogava, à mercê de si mesma, na distante paisagem.

Um dia - e só ela só sabia o qto esperava - cansados de tanto fazer doer, os medos dariam ouvidos à sede aguda q secava suas carnes.

O corpo em febre devorava o verme grudado nos verbos. Vontades q fluíam ardentes, em árias exaustivamente repetidas, e corroíam renitentes, íntimas e diárias. Insuportavelmente necessárias.

No seu espelho duas mulheres seminuas. Um olhar insaciável e dividido. Um mastigar sabores q deixava suas cores intrigantemente incompreensíveis. Sem pensar em estéticas deixava seu mundo as avessas, apenas para perceber o tanto q tbém era cinza.

Assim, na curvatura dos dias intercalava com desenvoltura suas partituras. Cada vez mais visível, com uma grandeza imprevisível, em seus lençóis os desejos descobriam a simplicidade capaz de preencher tantos vazios.







Em sua carreira como atriz Catherine Deneuve compôs uma imagem de símbolo sexual frio e inacessível. Seu personagem mais emblemático foi no filme “Belle de jour“, de Luis Buñuel.

Em uma cena do filme ela passeia com seu marido, qdo este a ordena q desça e pede aos cocheiros q a chicoteiem. Naquele momento, em um gozo incontrolável, ela experimenta o submundo de suas fantasias, misturando submissão, violação e um poder sádico q sabia possuir sobre os homens, ali representado pelo seu marido.

Simone de Beauvoir foi uma escritora e filósofa francesa. Ao se unir intelectualmente a Sartre vivenciou uma relação polêmica e fecunda, onde puderam exercer suas liberdades individuais em uma vida em conjunto.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O lado surdo da nudez...



No meio do entulho, tentando respirar no casulo, a larva corrói a casca. Do outro lado da lata a palavra de boa lavra, sem estranhar as retinas, se entranha nas pernas da menina, incendiando a fala libertina.

O ego refestelado se agarra em suas crinas. Empinando o rebolado pisa a ponta dos pés num samba afinado. À vontade se desgarra no balanço da saia e vai flutuando em indóceis corredeiras. O sorriso em q se esbalda sequer resvala na pontiaguda hipocrisia das pedras cravejadas nos dedos das damas olheiras.

Nos dias de domingo, mal tocava o sino, a vida despertava transparências no jardim da praça. Com floridos brincos exibia sorrindo seus coloridos dotes descortinados com a devida eloquência, fomentando indecências e sutis saliências, até, no mais embrutecido espectador.

Como se dançasse valsas se enche de graça com a falta de decoro do assanhado besouro. No brilho de tantos pensamentos endiabrados seu corpo faz coro. Àquela hora o q mais queria era desbravar as trilhas q a levaria ao templo onde guardara seus, até agora, intocáveis tesouros.

Havia desejos há mto perdidos no tempo. Tempo em q receava o doce sopro dos ventos, qdo se guardava, por não saber como conter vivia a proteger suas asas.

Os organismos vivos se completam por simbiose e não por osmose. No mel da colmeia a rainha faz festa e lubrica com sinais q levam a sua rubrica. Sem dar bola para os zangões ela implora a carícia hábil e canina da boca faminta do lobo. No jugo da jugular delira tanto q pressente o perfume dos sonhos q trazia desde adolescente.

Agora não se julga mais insensata. Cansada, talvez. Sabe o qto a fêmea q conduzia su’alma se embriaga com o perfume de rosas. Do tanto q ascende formosa no talo q apalpa e q se instala num entoar aflitos gemidos, sentindo correr nas veias o risco de se perder nos carinhos de tântricos espinhos.

No outro lado da lua a lagarta sucumbe ao rasgar o q lhe resta de pele. Ninguém percebe, mas, antes de partir ela sorri ao ver su’alma leve e nua sair por aí a colorir as ruas com as mesmas tonalidades de seu imenso prazer em poder voar.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Trem das doze...


Take 01 / cena única...

Sem receita certa a seta aponta retesa a linha reta e segue em sua direção. O maquinista só enxerga por uma vista. A passageira elegantemente sentada de pernas cruzadas arregala os olhos sem dar na vista e abre um sorriso safado ao sentir o tanto q seu rabo belisca.

Apagam-se as luzes rapidamente...



Ciclos, vícios e pânicos circenses



Pintamos milagres na páscoa pisando em ovos
Com festas resplandecentes nos sentimos o tais
Nada anormal no Natal darmos-nos presentes
Mas o q surpreende é - ajoelhados - acreditarmos
E até mesmo jurarmos sermos todos cristãos

Santa ilusão. No lava pés protegemos nossas mãos
Comungamos anos após anos e, acredite se puder,
Penitentes jejuamos, mas, salvo raríssimos enganos
Fechamos os olhos qdo alguém nos estende a mão

Nada disso importa, pois nos soltamos em artifícios
Postos na mesa, com fogos saudamos o novo engano
Para esquecermos-nos de tdo, sem nenhum sacrifício,
Nos primeiros acordes dos clarins de um carnaval




Valha-me meu santo profano metido em tantas heresias, como somos legais! Olhando assim, não é de estranhar q as pessoas na sala de jantar continuem ocupadas em nascer e morrer. E o q é pior, sem saber o q fazer. Resta esperar q a serpente venha e quebre de uma vez a casca do ovo...


Do inicio ao fim uma sintomática sonoridade da música “Panis et Circencis”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O dia em q falei com as flores...



Olho demoradamente o extenso e escuro corredor q tenho à minha frente. Chama a atenção o fato de tantas lâmpadas apagadas. A única acesa vem de uma placa no final do corredor avisando q estou “sem saída”. Respiro fundo na tentativa de aparentar uma calma q na verdade não sinto.

Como um Hitchcock registro a tdo em câmara lenta e adentro a penumbra guiado pelo cheiro do oasis q acredito existir no lado de lá.

Os ventos correm soltos entre os maciços e gigantescos paredões q margeavam a rua das flores. Apressados. Enjaulados. Agitados. Delicados. Era praticamente impossível imaginar a variedade de perfumes q, vindo de todos os lados, circulam nos pulmões.

Durante incontroláveis oito minutos tento enxergar o número nas portas q passam. Paro no número oito. É curiosa maneira q sempre fui atraído pelo infinito contido nas circunferências de sua imagem.

Cada um carrega sua história em possíveis lembranças contidas nos frascos guardados ao alcance da mão, n’algum lugar da emoção.

Procuro respirar fundo, mas o coração desobediente insiste em seu bater desordenado.

Sem hesitar toco a campainha q se faz de surda e se recusa a chamar. Toco outra vez, mais uma vez e nada acontece. Desisto da campainha e bato na porta. Uma. Duas. Três vezes. Qdo já não esperava por alguma resposta ouço o barulho de uma chave girar mansamente no lado q ainda não vivi.

Com o passar dos anos aprenderam a conviver em harmonia. Não se sabe por receio do confronto evitavam expor suas angústias em um explícito encontro. Contudo, não fosse o estranho hábito de nunca olharem para os lados, poder-se-ia dizer q conseguiam conviver com mútuo respeito.

Após o ruído de chave a porta continuou em silêncio e fechada. No mesmo compasso de minha respiração movimentei o trinco. Abri, entrei e fechei rapidamente. Tdo ainda é escuro. Somente a respiração continua a ditar meu ritmo. Agora outra, bem baixinho, parece tbém me ouvir do canto onde está.

Algumas vezes pareciam sentir-se incomodados, mas nada diziam. Mantinham-se no silêncio de seus ritmos. Sabiam q somente o equilíbrio lhes possibilitaria manter a perspectiva de sobrevivência. Tinham plena consciência do q eram e da necessidade em viver cada instante do q ainda atravessariam.

Lembrando a placa sem saída q vi no final do corredor sigo em sua direção. Sem saber percorro o caminho dos reis e escalo as dunas do meu armagedom. Um agradável cheiro de alfazema me dá boas vindas. Vendo as portas abertas derramo oito beijos q lambo com a língua assanhada. Quase ao mesmo tempo adentro com a minha verdade abraçando a vida.

Lá fora a rua das flores perpetuava-se em múltiplos olores. Apesar do outono e do longo inverno q teriam de atravessar, as essências do q se continha festejavam com alegria a primavera q um dia haveria de chegar.


Frenesi... Colibri... Lady Dri...



Mesmo sem nunca ter encontrado o equilíbrio da linha mórbida do romantismo de Jards Macalé, se jogou no mundo acreditando não ser preciso aprender a nadar.

Qdo adolescente sua mãe tinha o hábito de ouvir Elis. O q a fez concluir q, para não atravessar o samba na vida, bastava apreender o modo certo de jogar.

Sem delongas, sem fazer planos, se jogou no cosmo e com tímida delicadeza tocou os polos. Mto mais por precaução q por ironia enrolou sua bandeira de rebeldia e dedilhou a vida de um modo q não revelasse tanto o seu lado mais exótico.

Dessa maneira planou fluida e renitente sob os sóis de seus escaldantes trópicos. Por longos anos sentiu ser bela a atmosfera. Ao penetrar na zona franca, mas ainda turva, de sua estratosfera delirou em rígidos regozijos, repleta de prazer, refeita de gozos.

Um dia se viu sem saber o q fazer e sem ter aonde ir. Foi qdo percebeu diante de seus olhos imensos oceanos q ilhavam seus desejos. Nesse dia pela primeira vez sentiu em seu corpo respingos do medo.

Tanto tempo se passara e alma kamikase da boneca semiótica continuava jogada na cama de pernas abertas, mas sem abrir os olhos.

Hoje pela manhã, ao ouvir de longe o som de um solitário tamborim, não se conteve e chorou. Parecia reconhecer q não valera de nada virar tantas páginas de sua história. A batida do samba continuava a mesma.

Por trás dos montes a beleza se esvaia refletida na melancólica de um sol q ia embora. Sem luar a noite se enfeitou de luzes artificiais.






Recomenda-se ouvir Jards Macalé em qq ocasião da vida...


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Tome jeito, dona independência...



Imagino Evaristo um poeta maestrino com o Dom de ser Ravel. Sou capaz de vislumbrar o dia em q subia a lomba pensando o q fazer para alcançar os mimos e ser visto com bons olhos pela nova corte q tanto falavam iria se estabelecer naquelas cercanias.

Eureca! Pq não um hino! Pensou em um clarão tão forte qto o sol q ardia na sua cabeça musical. Nada mal, concluiu sem conter o sorriso. Por um instante nem lembrou de reclamar da velha lomba cansada de tanto ver suas subidas. E descidas.

Um hino conquistaria a simpatia e ampliaria sua audiência. Visto q, mesmo com toda a efervescência q havia nas terras onde tdo q se plantasse dava, ainda não havia sido inventado youtube.

Assim, com máxima virtude, sem sequer lembrar-se do tuiuiú desavisado q quebrava o galho planando tranqüilo pelos pantanais mato-grossenses, ele viu raiar diante de si um horizonte q lhe faria deitar eternamente em berço esplêndido.

Ao chegar a sua casa nem quis olhar para a cara de sua mulher. Com toda a certeza ela o fuzilaria com olhos mais mortais q pistola automática. Mto menos deu bolas para a gana com q a patroa esfaqueava o coitado do peru q nada tinha a ver com mágoas mal adormecidas da noite anterior. Até desmiolado estava, aguardando a hora em q seria servido no almoço.

Como bom discípulo de Vivaldi, Evaristo correu em direção de seus filhos ainda meninos e, querendo ser ouvido por toda a casa, bradou em alto e bom som: -“já podeis, filhos meus, ver contente a mãe gentil. Acabo de bolar a nossa liberdade. Aquela q vai mandar para bem longe todo o nosso temor servil”.

Aproveitando o entusiasmo da tresloucada inspiração continuou sua eloqüente fala, agora com endereço certo da cozinha: “os grilhões que nos forjavam na injúria e astuta perfídia, doravante encontrará a minha mão mais poderosa.”

Imagino até com q empáfia se postou, para dar ênfase à entonação daquilo q dizia com incontida zombaria.

- Não temais ímpia falante, nem procure esconder a sua face hostil. Vossos peitos sentirão meus abraços. Larga essa faca! Desfaça de uma vez por todas essa muralha! Levanta logo esta saia, pois percebi q estás sem anágua. Venha comemorar nossa independência com toda intensidade desse brado varonil.

Então, perfilado com o trompete armado, sentiu a retumbante valsa do imperador q sua amada dançou fantasiando regalos e maus tratos dados por certo capitão da cavalaria q, não fazia nem três dias, havia deixado sua farda para ela lavar e passar.

Antes q a estória desande para algo estranho de contar, faz-se mister declarar q depois Evaristo fez alguns uns ajustes na idéia. Mas foi assim q se deu a inspiração – salvo conotações ao contrário - daquele q mais tarde viria a ser reverenciado e executado como o hino à independência do Brasil.






O Hino da Independência do Brasil foi composto por Evaristo da Veiga e musicado por Dom Pedro I.

Pelo menos assim diz o relato oficial. Sabe-se lá se tal parceria não foi mais uma agrado do Evaristo. Pelo visto...


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Sem pé nem cabeça...


Gosto de vê-la zanzar com suas asas abertas os contornos do “S”. Esse de um sonhar simplicidades em espaços confusos e intrigantes. Esse q se perde nas letras de meus versos. Na multiplicidade a q se permite a conjunção de meus alfabetos ela é parte itinerante.

Sua natureza é feita do mel da inquieta abelha q encontra no pólen a sua intimidade mais esvoaçante.

Quem a ensinou a voar certamente conhece o segredo dos peixinhos do mar. Sabe o q é navegar em terras de tantas línguas estrangeiras. Sabe do perambular dos pensamentos. Das distâncias e da mesma maneira q passeia, sem pé nem cabeça, apenas para ouvir, por entre arbustos silvestres, o som q a tarde faz qdo se esvai no toque de agudos minuanos, a farfalhar folhas de perfumados ciprestes no aproximar dos outonos.

Ao vê-la brindo a vida. Brindo a tez cortês do inesperado gesto insensato. Mas q se faz terno por ser espontâneo. Brindo as gentilezas esquecidas nas gavetas. Brindo aos afagos sobreviventes e aos tristemente afogados no mar da estupidez humana.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Possessões urbanas... Divinas relações...



Uma mesa feita de madeira repousava majestosa no centro. Sobre ela flores vermelhas e perfumes de oferendas. Era dia de festa. Chamas de velas acesas amontoadas pelo salão dançavam iluminadas no ritmo do bater das palmas q determinavam o compasso do respirar naquele momento. Dedos ágeis riscavam as cordas de uma guitarra flamenca. Um tambor africano repicava a batida com lamentos q mais pareciam rangidos de tango.

Sem q ninguém esperasse um corpo esguio de curvas seminuas começou a girar. Tinha o rosto coberto de um jeito q só era possível lhe vislumbrar o olhar. Dançava e girava como se nada existisse além dele, o q aumentava o novelo de animalescos desejos boquiabertos e umedecidos q acompanhavam atentamente aquela enigmática evolução.

Dentro da burca a mente enlouquecida experimentava o gosto da vida. Por isso a consumia com toda a sede q até então impedia o explodir de sua fala. Agora, ali, parecia aceitar q a vida não passava de um lapso do segundo.

Assistindo a tdo um babalorixá babava a renda branca q cobria as manchas de sua camisa feita de puro linho.

A batucada preenchia o corpo e lambuzava a boca. A cada gole de uma bebida forte e escura contava com prazer as gotas do suor q lambiam sua nuca. Chutando as últimas latas vazias de pudor, com o mesmo pulsar q lhe invadira a alma, aqueceu as mãos ao segurar o sexo quente q pululava à sua frente. Com as costas contraídas sentiu o ardor de sua pele sendo costurada à pele daquele animal q a possuía de forma brutal e sem anestesia.

Nunca se sentira dona de nada. Nem de si. Naquele instante nem mesmo de sua vida. Ao sentir-se possuída viu q a vida não era de brincadeira e nem mistério de algum outro mundo. Qdo seus olhos fecharam compreendeu q estava decidida a ir fundo.

Em sua volta semblantes alucinados continuavam no bater de palmas, a sacudir os pés e assanhamentos q levantavam a poeira naquele ambiente de chão batido. Trincando os dentes diziam asneiras ao ver o corpo rastejar enfurecidos orgasmos nos pedaços de esteiras.

No roçar de seus opostos o corpo experimentava tdo aquilo q nunca havia se atrevido. De algum modo se sentia tomado por endemoniados espíritos de luz.

De um jeito visceral lambeu a ponta do taco ao se sentir numa sinuca de bico. Imprensado contra a parede de um sinistro beco sem saída sentiu a gosma do cuspe atingir sua fronte. Dalí em diante uma estranha força arrastou o corpo já sem defesas pelas corredeiras. Apenas su’alma, de forma lúdica, permanecia lucidamente acesa.

A um palmo do chão tentou, em vão, se apoiar na mesa. Com extrema beleza apalpou ainda mais o pau q lhe encarava sem a menor vergonha. O corpo ambivalente enfim fluía em todas as suas vontades. Com as pálpebras entreabertas se pôs ajoelhado e, apertando os seios, deu graças lembrando as rezas e as promessas q havia feito na noite anterior para o senhor do Bonfim.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

cigarettes and coffee...



Meus pés formigam ao tocar a terra. O pensamento observa o eriçar da pele. Por um instante temo ser o meu derradeiro instante de lucidez. Dormente sensação me domina.

Então eu as vejo subindo pelas minhas pernas. Operárias, obedientes e ordinárias amontoam-se em volta do meu pau.

Simultaneamente ouço um toque refinado de uma lira anunciando a entrada triunfal da ira. A ira do mundo. Um mundo de tantas faces. Minha delinqüente poesia se posta contrária a todo esse desbunde inconseqüente transmitido ao vivo de algum lugar do planeta, ao tempo em q reverencia as ausências q me cantam no ouvido canções de aninhar.

Até hoje não sei para q serve tanta ousadia, se nunca sei qual a sua verdadeira face e nem o modo q se mostrará na próxima vez em q aparecer na janela.

Sem outra saída sigo as fases da lua, enquanto encho uma garrafa de café. Apago o cigarro e a vida lá fora. Sem ter noção da hora fecho os olhos qdo vejo meu corpo tomado pelas formigas. Em volta da fogueira feita do lixo de poemas o sol nasce moreno, deixando aceso o obsceno tesão lunar.

Crescem em meus ouvidos os envolventes sons da lira. Algumas formigas mais atrevidas formam trilhas ao lamber fantasias escondidas na virilha. Por entre os eclipses elas dançam maravilhas. Nem sei se tdo não passa de uma grande loucura, mas nessa hora sinto q já sou uma delas.





“Por mais distante e errante q esteja o navegante." Por mais q tdo não passe de uma grande ironia, é impossível não se deixar levar pelas várias faces da poesia...



No final uma lembrança proposital da musica "Terra", de Caetano Veloso...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Boca de céu... Mel de mamão...



Corpo melado
Jorrando em mel
A foz de tua boca
A tua voz macia
Um querer tocar
Fundo no teu mar
Um lambuzar
Águas marinhas

Gravar teu corpo
Com minhas mãos
Colher teus frutos
No chão ser alegrias
No peito do pé
Num pé de mamão
Reconhecer em ti
As minhas fantasias


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Noites de guerra... Dias de paz...



Sem recorrer à busca do google
Ou consultar extensos compêndios
Despiram logo cedo suas fantasias
Em tdo o q aquecia e transparecia
Verdades eram ditas sem medidas
Esparramadas em berço esplendido

Assim passaram a viver cada dia
Enfiados em seus embaraços
Degustando-se em mútuos abraços
Iam fundo no fim de seus mundos
Gozavam fáceis e engalfinhados
Sonhos em q se sonhavam náufragos

Bandoleiros hasteavam bandeiras
Lambiam seus corpos cansados
Sem qq nexo bolinavam seus sexos
Percorrendo extensas fronteiras
Desfaziam nós e cordões umbilicais
Em noites de guerra e dias em paz


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Se Marley não usasse bob...



Enquanto o lula sanfoneiro
Pega um ita cheio de fitas
Lá para as bandas do norte
Com razoável sorte me acho
Pegando a palha q resvala
As minas enlouquecidas
Desvendo o jogo das gerais

Espalho os olhos pela rua
Tropeço em pedras da lua
De banda encosto na banca
Cantando woman no cry.
Ninguém me ouve, mas
A estrofe segue direitinha
A linha doce dos canaviais



Se Marley não usasse bob cantaria Gonzaga na Estrada Real...


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Switcher...



Nunca quis saber de twist
Tinha ganas por azeviches
Dominadora e dominada
Fechava os olhos e flutuava
Na ponta dos pés se soltava
Dançando flamenco no pau
De quem a levava entender
Suas mais íntimas loucuras





Switcher é uma expressão do universo BDSM utilizada para identificar a pessoa q tem ao mesmo tempo a natureza dominadora e submissa. Ilustração feita a partir da pintura “The Abduction” / óleo sobre tela de Paul Cézanne (1839-1906)

Recomenda-se ouvir "Danza del fuego fatuo", composição de Manuel de Falla para o filme "El amor brujo", de Carlos Saura

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Não levo fé...


Não acredito em quem não transgride. Em quem se diz imune e move-se no mundo sem sair de um blindado altar, quase secular. Custo a acreditar na palavra lapidada e impecavelmente brilhante, feito um diamante protegido por uma redoma difícil de penetrar.

Definitivamente eu não acredito em quem policia os rompantes. Quem se comporta como um livro enclausurado n’uma estante. Desses q antes mesmo de abrir já se sabe o q vai encontrar. Desconfio de quem tem vício de vigiar a vida alheia. E não relaxa, nem qdo a madrugada dá a graça de seu ar de bela adormecida.

Morro de medo dos tipos metidos, inconseqüentes e dependentes, q a todo custo se enforçam em transparecer na falsa luz de repetidos solzinhos. Sorridentes e sozinhos. A primeira vista até parecem bonitinhos, mas não largam suas capas, nem para saber se é tempo bom ou cai chuva pesada.


Abduzido...



Fui escolhido
Modo ON ativado
Escancarado
Do jeito q foi. Preciso
Abduzido, por obra e graça
Leve e leviana
De uma determinada dama
Difícil de esquecer




Montagem em obra “Boreas abducting Oreithyia”, óleo sobre madeira de Pieter Pauwel Rubens (1577-1640)



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Yoani Sánchez...



Linda flor cubana
Força inquebrantável
Pele frágil em febre Yoani
Nem digo direito seu nome
Digo à esquerda da palavra
Despudorada navalha
A espalhar sementes
No céu, no planeta

Linda flor... És a onda
Silenciosa saída dos lares
Canção singular de sangrar
Mares guardados em segredo
E um olhar cabisbaixo
Diante do retrato exposto
Nos muros, nas ruas e becos
Entristecidos de Havana

És a rosa dos ventos
Perfume de um novo tempo
Alento ao penetrar neblinas
Mofo de envelhecidas cortinas
Teu brilho tem o viço do sol
Luz de um mundo em liberdade
Varando escuras madrugadas
Com pressa de nascer






Yoani Sánchez. Bloguera. Licenciada em Filosofia. Reside em Havana e combina sua paixão por informática com seu trabalho no Portal, desde Cuba.

Gerationy é um blog inspirado por pessoas como eu, com nomes que começam ou contêm um "Y". Nascidos em Cuba nos anos 70 e 80, marcados pelas escolas no campo, bonequinhos russos, emigração ilegal e frustração.

Amanhã, dia 03 de fevereiro de 2012, será a resposta do governo de Cuba ao pedido para viajar para o Brasil. Ela é aguardada no dia 10 em Jequié, na Bahia, onde estreará um documentário em que ela aparece como personagem.

Até agora, segundo contou, ela fez 18 tentativas de sair da ilha, todas negadas. "Se a resposta sair, será agradável. Mas é claro que não estou esperando uma resposta para me exilar. Quero conhecer o Brasil e voltar."

Yoani definiu como "absurdo migratório" o ritual vivido por cubanos que querem viajar para o exterior. "É preciso pedir uma autorização para sair e para entrar - Cuba é o único país do Ocidente onde isso ocorre." E as autoridades ainda exigem "uma carta branca para entrar em um avião, mesmo tendo o passaporte valido e o visto".




Fonte de informações sobre yaoni: www.desdecuba.com/generaciony - Inserção de trecho de notícia veiculada no Estadão, em matéria de Gabriel Mazano - Agência Estado

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Sublimes salmos... Sutis súplicas...



Presa a um altar adornado de lírios e desejos, com os pés e mãos atadas ela acompanhava, sem desgrudar seu olhar, o movimento sádico dos ponteiros de um relógio encravado em sua mente.

Sem conseguir calcular a extensão de sua loucura, saboreava cada segundo com a mesma convicção q a fazia ferir a própria carne. Estranho prazer do se sentir entregue e sem saída. Em silencio su’alma parecia declamar a ode de sua submissão, numa declaração a um amor q não via, mas sentia corroer tdo o q havia dentro de si.

O Senhor é meu pastor e nada me faltará. Só Ele me faz descansar em campos verdejantes e me guia por águas tranqüilas...

Submissa ao tempo se desfazia aos poucos de suas vontades. Alheio a sua existência, o tempo destruía suas fracas resistências, revelando na flor da pele toda a sua insignificância. Qto mais se anulava mais se sentia menor diante daquele a quem respeitosamente chamava de Senhor.

Só Ele me protege e me dirige. Guia-me pelas veredas da justiça, por amor do Seu nome...

A obediência passara a ser a maior e a mais definitiva prova q ela poderia dar do seu estranho amor. O simples ato de obedecer deixava-a tomada de uma indescritível excitação. Sentia remexer seu ventre e envolver su’alma em um explícito e delicioso martírio.

Seu sexo contraia de tal maneira, q sacudia a cabeça, como a conter a loucura ainda represada prestes a explodir. Sabia q somente Ele daria sentido a sua vida. Vida q já não possuía, pois tdo o q sabia de si havia sido entregue nas mãos hábeis de seu condutor.

Mesmo q eu ande pelo vale da sombra da morte, nada temerei mal algum, pois Tu estás comigo...

Sem saber o q lhe aguardava. Sem noção do q aconteceria ou por onde ele a conduziria, ela abria a janela e ficava a sua espera. Refém e escrava. Por qto tempo? Não se atrevia questionar.

Embora nunca houvesse dado das angustias de sua inquieta juventude, desde a adolescência fora assim. Somente depois de mtas recusas e frustrações, despertara para necessidade de encontrar quem lhe coloca-se em seu verdadeiro lugar.

Agora estava ali, vendo sua estória ser reescrita por um deus enfurecido q invadira seu íntimo, despertando seu desejo em ser possuída com luxuria e adestrada em todo o esplendor de sua submissão.

Tua vara e o teu cajado me consolam...

Sentia-se pronta para ser do jeito que ele queria. Qdo chegasse a iria encontrar vestida com a sua camisola mais bonita. Será q ele irá gostar ou deveria colocar outra? Será q dessa vez ele a iria presentear com uma coleira?

Sua vontade era de sentir seu pulso forte. Seu maior desejo era ser submetida a toda espécia de castigo. Só assim poderia saciar seus impulsos e purificar su’alma de tdo o q fosse impuro. Em seu íntimo sabia o qto era indigna, mas lutaria com todas as suas forças para q Ele aceitasse sua total devoção. Com ele descobriria, enfim, a vida sem artifícios.

Honras-me ao ungir minha cabeça com Teu óleo. Em Ti meu cálice transborda...

De repente seus olhos cobriram-se de um brilho incomum. Do outro lado da janela ela viu q seu Senhor estava a lhe observar. Imediatamente colou seu rosto no chão e ficou à sua espera, cadela q se sentia e, finalmente, reconhecia q era. Não era a primeira vez q se percebia bela. Mas, pela primeira se sentiu iluminada por inteira, qdo viu o tempo lhe estender a mão.

Certamente q a Tua bondade e misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor por longos dias...