terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Possessões urbanas... Divinas relações...



Uma mesa feita de madeira repousava majestosa no centro. Sobre ela flores vermelhas e perfumes de oferendas. Era dia de festa. Chamas de velas acesas amontoadas pelo salão dançavam iluminadas no ritmo do bater das palmas q determinavam o compasso do respirar naquele momento. Dedos ágeis riscavam as cordas de uma guitarra flamenca. Um tambor africano repicava a batida com lamentos q mais pareciam rangidos de tango.

Sem q ninguém esperasse um corpo esguio de curvas seminuas começou a girar. Tinha o rosto coberto de um jeito q só era possível lhe vislumbrar o olhar. Dançava e girava como se nada existisse além dele, o q aumentava o novelo de animalescos desejos boquiabertos e umedecidos q acompanhavam atentamente aquela enigmática evolução.

Dentro da burca a mente enlouquecida experimentava o gosto da vida. Por isso a consumia com toda a sede q até então impedia o explodir de sua fala. Agora, ali, parecia aceitar q a vida não passava de um lapso do segundo.

Assistindo a tdo um babalorixá babava a renda branca q cobria as manchas de sua camisa feita de puro linho.

A batucada preenchia o corpo e lambuzava a boca. A cada gole de uma bebida forte e escura contava com prazer as gotas do suor q lambiam sua nuca. Chutando as últimas latas vazias de pudor, com o mesmo pulsar q lhe invadira a alma, aqueceu as mãos ao segurar o sexo quente q pululava à sua frente. Com as costas contraídas sentiu o ardor de sua pele sendo costurada à pele daquele animal q a possuía de forma brutal e sem anestesia.

Nunca se sentira dona de nada. Nem de si. Naquele instante nem mesmo de sua vida. Ao sentir-se possuída viu q a vida não era de brincadeira e nem mistério de algum outro mundo. Qdo seus olhos fecharam compreendeu q estava decidida a ir fundo.

Em sua volta semblantes alucinados continuavam no bater de palmas, a sacudir os pés e assanhamentos q levantavam a poeira naquele ambiente de chão batido. Trincando os dentes diziam asneiras ao ver o corpo rastejar enfurecidos orgasmos nos pedaços de esteiras.

No roçar de seus opostos o corpo experimentava tdo aquilo q nunca havia se atrevido. De algum modo se sentia tomado por endemoniados espíritos de luz.

De um jeito visceral lambeu a ponta do taco ao se sentir numa sinuca de bico. Imprensado contra a parede de um sinistro beco sem saída sentiu a gosma do cuspe atingir sua fronte. Dalí em diante uma estranha força arrastou o corpo já sem defesas pelas corredeiras. Apenas su’alma, de forma lúdica, permanecia lucidamente acesa.

A um palmo do chão tentou, em vão, se apoiar na mesa. Com extrema beleza apalpou ainda mais o pau q lhe encarava sem a menor vergonha. O corpo ambivalente enfim fluía em todas as suas vontades. Com as pálpebras entreabertas se pôs ajoelhado e, apertando os seios, deu graças lembrando as rezas e as promessas q havia feito na noite anterior para o senhor do Bonfim.