segunda-feira, 24 de março de 2014

Gruta anglicana... Ararinha azul...




Sonidos em suas membranas escancaravam escandinávias avermelhadas. Sonhos rabiscados em azulejos encardidos de vida alinhavavam desejos de maneira desconexa.

De certa forma parecia ser o modo correto de enxergar a trilha q me conduziria em sua direção.

Passado o tempo. O passado não passa de um tempo. É tempo q o vento não leva...

Ao toca-la com a ponta dos dedos senti q tinha vida própria. De tom impreciso, levemente umedecido, entre o violeta e o rosa.

Poucas penugens protegiam as margens e a volúpia em sua nascente q, ao desaguar sobre afluentes, se dividiam imensas, escandalosas, pelas ribanceiras de suas coxas.

Escrava do pudor atravessou a avenida dos navegantes. Durante o percurso, sem destino certo e abandonada por seu professor, confessou seus pecados nas esquinas da república.

Comportas abertas sem nenhuma passagem secreta, senha magnética ou palavra mágica.

Diante da gruta pude compreender o porquê dela insistir q já não valia a pena abrir-se ao sésamo. 

Nos fins de tarde, encostada ao muro da cúria, lia o guarani esperando q o índio a livrasse de seus infernos.

Quem sabe em meio a outros manifestos...





Montagem sobre fotograma do filme “Meu Japão brasileiro”, com Mazzaropi e Zilda Cardoso.

O guarani é um romance de José de Alencar, escritor cearense, adaptado à ópera por Carlos Gomes, compositor de ópera brasileiro.

sábado, 22 de março de 2014

Justine seja feita...



Debruçada na estante se faz de culta.
Verbo transgressor encosta com eloquência
na fina louça de suas coxas, nos bordados
desalinhadas da saia curta. Alma suada.
Desassossego no mar de sua calcinha.

Transe transcrito de olhos fechados.
Febre a descoberta em vento minuano
Afagos, flancos abertos em solavancos.

No baixo ventre brinca no trem
dando risadas com seus fantasmas.
A mão ousa. A emoção não repousa.
Dedicada esposa oculta na mariposa
Arguta abusa de seu protetor.

Um louva-a-deus salta no ar...

Meia a tarde adentra inocente
a casa à procura de sua dona.
Para seu espanto a encontra
no infortúnio de suas virtudes
nudez consagrada no sofá...




“Justine ou Os Infortúnios da Virtude” é um clássico do erotismo, escrito pelo Marquês de Sade.

Gata de bota... Baba de fada...



Modelava vestidos no corpo como se trajasse leques floridos.

A rigor, leve como moleque, repetia gestos. Abanava sorrisos de leve com o leque. Ao torto e ao direito remexia o quadril como ecos de afirmação.

Pura afinação.

Quando o calor teimava em falar mais alto fazia um instante de silencio. No mesmo minuto esquecia o ranço no tranco e se atirava no pau do gato.

No remoer dos ventos perfumava-se de aromas multicolores. Com eles perfurava o amor até remover cata-ventos do bolo do casamento.

A cada um seu devido tempo. E intento.

No movimento enlouquecido das maracas despia o pudor de seus contos de fada.

Querer... Queria. Só não sabia se deveria.
Atrevia. Só, não dizia nada...

Na volta para casa nem sempre retocava a maquiagem. Mas repetia os afetos de sempre.

Algumas vezes adormecia com o leque entreaberto, sorriso aberto e boca fechada.

Era o amor falando mais alto...


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sexta-feira, 21 de março de 2014

Outonos na chuva...



Lambia os dedos ensaboados na compoteira de doces. Deitava na rede para sonhar com chuva. Só não queria se molhar.

Entre uma janela e outra provocava. Devorava o q podia, como se o seu universo fosse feito de um único dia.

Carregava na bolsa palavras adequadas. Com elas apimentava fantasias em pombas impacientes à sua espera na praça da consolação.

O coração indecente palpitava a cada experiência. Se real ou fantasia nunca sabia. Evitava o confronto. Só não conseguia evitar os outonos.

Parecia correr contra o tempo, como se recupera-lo fosse necessário para justificar artimanhas usadas qdo ainda criança.

Dizia-se obrigada a ser o q era. Vinha de vinhedos Prisioneira de outras eras pintava vinhedos e primaveras.

Só não sabia ser o q era.

Por isso recorria ao tempo. O mesmo q lhe fugia à lembrança. Tempo q não vivera, pois esquecera de acordar...


domingo, 16 de março de 2014

Chama no ombro... Clara clareou...



Era vento virou advento. Passado o tempo foi dissolvendo. Só vendo para acreditar!

Tornado outra vez vento reconheceu o tempo. Coisa difícil de calcular!

Mais adiante soprou a chama na vela amarela, cor guia de seu orixá.

Naquela noite, vinda não sei de onde, adentrou sua vida trajando robe de chambre. Disse q esquecera a santa em casa e, de todas as formas, se fez cada vez mais clara.

Na lua cheia foi só clarear suas antenas clavadas. Luz acesa enxergou sua sombra crisálida, silhueta gostosa de regar.

Com tudo a descoberto sentiu o calor de seus infernos. Não demorou a encontrar a linha fronteiriça de seu horizonte. Sem noção do q era refez os passos.

Amanheceu lambendo meu ombro...

sexta-feira, 14 de março de 2014

Frevo afinado e uma oração...



Era carnaval. Era o corpo a descoberto
Um mascarado desconfiado
Um amor à espera de renascimento.

Entro na cena Alfa imerso em alfazema .
Ela flamba no frevo esquecida das cantilenas
Na troca do passo o olhar acena.

Nos altos relevos vicejo à mercê do balancê
do paraíso exibido no seu farto sorriso.

Intuição fêmea largada no batuque sem arrimo
fazendo uso do bumbo deixando surdos
meninas e meninos entregues à sua livre tradução.

Plenas na madrugada, sorrindo faceiras,
as últimas kengas desciam a ladeira da ribeira.

No caldo e rescaldo da oliveira
suor misturado, meu corpo untado
sexo saboreado na fragilidade dos lençóis.

No quarto o dia amanhecia cinza.
Ainda assim a refiz numa última oração...


quinta-feira, 13 de março de 2014

Sim, sem hora... Sim sinhô...



Paraíba recheada de fridas
Guernicas pintadas sob o sol,
cabra celeste parido no mar,
horizonte leste da caatinga.
Com essências de prosa,
pele morena de cor fogosa,
a menina debulha sua sede
na rede estendida na varanda,
à sombra amante do lampião.