domingo, 22 de fevereiro de 2015

21 de fevereiro...




A tarde fez-se dela
Pinturas sobre a tela
Mistura de primaveras
nos lençóis de verão...

Por respeito o mar fez silêncio
O vento parou o tempo
Não se deu tempo do tempo
Nem partiu-se na despedida...

Quando a noite chegou
só encontrou
um punhado de sorrisos
deixados pelo chão...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Idas bem vindas...




Ventos do norte e do sul circulam pela praça.
Custa crer tanto q tentam se meter entre eu e vc.
Por certo não me vêm dar voltas em tua cintura.

Certo é q, acima de todas as coisas,
mto além da louca, qq coisa doida bate forte
qdo explodes na madeira sacudindo a nau.

Nada mal. Sinto firmeza em tua desenvoltura.
Nos montes de Ida não penso na volta.
Nem é preciso. Respostas se reportam no tempo.

Argonauta sopro ventos. Aumento o volume do fado.
Embarco o argo e me aventuro pelos mapas
sem amarras, preso às correntes de tuas águas.

- Gracias por no usar enaguas!







O monte Ida é a mais alta montanha da ilha de Creta, Grécia. Lá se encontra a caverna onde Zeus nasceu.

Segundo a mitologia grega, Argo era o nome dado à embarcação usada pelos argonautas em suas aventuras.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Milady... Milorde...




- Boa noite Milorde!
- Às suas ordens milady...

- Quem sou eu para tanto?! Respondeu milady com sorrisos nos olhos.
- Quiçá possa mostrar o qto é tanto. Completou o drácula.

- Não é para tanto. Não ordeno tarefas nem ao meu companheiro. Por sinal um tremendo gato. Que dirá ordenar a quem pouco conheço?

Milorde nada respondeu.

Suas linhas a traiam. Linhas q atraiam contradiziam tdo o q milady acabara de dizer.

Lindas linhas labirintos. E nem faziam referência, com a devida reverência, as linhas poéticas.

A gargalhadas milady olhou nos olhos do Drácula, a quem chamava milorde.

- E o q sente? Atração? Desejo?
- Melhor resposta tem o beijo...

Por definição não definiram desejos. A emoção falava muitas línguas.

Sem discutir filosofias pintaram telas de alegrias.

Ali, sem salvador ou mona lisa; sem rogar testemunho de nenhum jeová, deram-se ao tempo.

Felicidade bastava...







Fotograma do filme "Conde Drácula", de 1931, com Bela Lugosi e Helen Chandler.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Rendilhas do quase segundo...



Retalho, quadro a quadro,
remendos na parede do quarto.
Retoco recados com a ponta dos dedos.

Reflito. Respeito paciência talhada.
Recapitulo ao acaso. Registros são atalhos.
Rebentos movimentam ventos.

Renasço réptil na dália q respiro no talho.
Reacendes larvas com brilho nos olhos.
Revolúvel tesão ambíguo.

Reconheço: reverencio teus recantos.
Revivo. Revisito teus olhos.
Remexo tanto q atrevo hablar esperanto.

Renego remorsos. Revogo o ócio.
Reforço ossos. No rei posto
rebolas rainha no meu carnaval.

Releio o resumo.
Rezo para q releve o banal deste reles canto.
Repenso. No q penso refaço cazuza.

Rendido no escuro de teu mundo
reescrevo o quase de cada segundo.
Rebendito cardápio q te agrada...







Retoque no fim com leve ton de “Quase Um Segundo”, letra e música de Cazuza.

Rendilha. Tecido de malhas abertas e textura delicada, cujos fios se entrelaçam formando desenhos. Rédeas em couro cru, cuja finalidade é arquear o pescoço do cavalo durante a doma.

Rebendito. Mais que bendito; muito abençoado; felicíssimo.


Retenho tudo o q disse...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Nada a fazer...

Senão, mais uma vez, agradecer...

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

O colarinho de Martinho...



Nos arredores era um dos poucos q tinha colarinho impecável. Nenhuma dobra, linha torta ou mancha de batom.

O q não queria dizer q não fosse um escroto. Por sinal adorava uma vadiagem. Mas tinha cuidados redobrados para não arranhar sua imagem.

Assim era Martinho. Sempre querido por todas. Senhor de boa família, cujo sobrenome lhe favorecia a sangria. Poderoso afrodisíaco, tradicional sinal de garantia q usava sem parcimônia. Com fidalguia abria sorrisos e braços gentis, distribuindo quinquilharias q trazia das viagens q regularmente fazia para Rivera e para o Paraguai.

Astúcia tem asa curta q dura uma estação. A cada emoção se renova, como prova os bilhetes deixados com marcas sutis de batom.

Diferente da sedução q é rio caudaloso alimentado por afluentes de diferentes vertentes, de imprevisíveis correntes.

Quem sabe do éter entenderá as razões q faziam Martinho manter “um amor; fazer loucuras por uma mulher”, mas sempre calar ao vê-la encenar e ensaiar um aceno em outra direção.

Assessora para assuntos onde a barra pesada. Sempre prestativa e, aparentemente, devotada. Não tão jovem. Não tão velha. Mas eficiente e mto prendada. Ouvia a tdo. Aceitava tdo. Só de vez em qdo é q dava sua cartada.

Quem a conhecia sabia q a gravidade no aquário cria um mundo paralelo onde tdo é diferente. Sabia o porquê de um peixe vivo conviver tanto tempo com água jogada fora da bacia. Consultava o cardápio sabendo q entradas feitas no extrato abrem o apetite e o desejo no peixe frito.

Enquanto houvesse testamento e o apartamento da sacramento, haveria promessas de rendição. Para ela um nobre investimento. Para Martinho significava estar próximo da redenção.

Apesar das tentativas e de suas prerrogativas ela insistia em manter o rodízio. Circulação livre somente na perimetral.

A saber: troca harmoniosa de dedos no interior do dedal; uso adequado da meia soquete no bocal; meias-palavras acatadas com açúcar e com afeto; de resto tinha feitiço para evitar o enguiço e um ritual posto a serviço, conforme previa seu ideário.

Antes de o ano passar, como sempre fazia, ela ajeitou o colarinho de Martinho q admirou seu decote vistoso. Entraram com o pé atrás no outro. A despeito do ocorrido nos outros prometeram tudo de novo. 

Depois ficaram abraçados esperando o carneiro servido no molho madeira.

Ela, a sublinhar aparências, dava desculpas pela falta de carinho. Martinho, a se fazer besta, fingia ajeitar o colarinho.

Quem os via sorria e dizia terem sido feitos um para o outro...







Durante o trajeto incidência arriscada da canção "nervos de aço", do compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues

sábado, 27 de dezembro de 2014

A filha do desembargador...




3 da madrugada. Após três dias fustigantes encontrava-se a três passos das fronteiras de si mesmo.

Ribera de la Cruz era um cercado regido pelo silêncio. Ali não se falava abertamente. Somente qdo estavam entre seus botões aproveitavam e falavam aos borbotões, a ponto de criarem curiosos bordões.

Na província não era segredo pra ninguém. O q havia era respeito imposto, passado de pai pra filho, e um temor em macular a figura do velho desembargador

No terceiro dia descansava do almoço qdo avistou pela primeira vez a viu passar esvoaçante, causando alvoroço na praça.

Religiosamente, às quinze horas de todas as tardes, a filha do desembargador atravessava o pátio defronte a catedral; indo em direção ao café q havia no único cinema do lugar.

Vestido solto de corte cavado; cabelo amarrado e pescoço perfumado. Um tanto dislética, mto poética, cumprimentava a todos com um sorriso maroto entre os lábios. Para evitar desagravos dos olhares beatos em seu decote, trazia colado ao peito um livro com crônicas de Clarisse e outro sobre a vida de Beauvoir.

Quem a vira crescer revestida de boa dialética tapava os olhos ao ouvir histórias dela. Logo ela, a dileta personificação da candura, capaz de enxergar ternura em trama de 'puruca', revelara-se fonte abundante de malícias, protagonista de estimulantes aventuras.

Balzaquiana de estirpe burguesa. Embora impingisse valores rígidos em seu comportamento, em alguns momento deixava escapar, principalmente ao luar, suas tendências e preferências 'bachianas'. Não importava onde fosse: na vila, na cama forrada de grana ou na língua dançarina dos lobos.

Para catedráticos era um pecado. Para adolescentes apaixonados, uma punheta enfeitiçada.

Para o desavisado e recém-nomeado-namorado significava experimentar as turbulências de nuvens escuras de chuva pesada.

Aos amores, novos e antigos, recitava o mesmo verso. Aquele em q aprendera semear, ao folhear os livros na estante de seu pai.

Após flanar pelos intelectos, recolhidas as asas da Pannair, cruzava as pernas na poltrona do bem frequentado café.

A maneira como misturava lirismo e cinismo causava fortes estragos. Não raro transformava olhar impetuoso em desnorteado. Esse, coitado, passava o resto do dia a tatear o vácuo; no vazio perturbador dos desejos deixados a ermo, sem perspectivas de definição.

Feita as leituras distribuía pequenas amostras da pujante tríplice fronteira. Conduzindo pensamentos pelas beiras revelava a relva coberta por uma fina renda bordada à mão, em azul perdição.

Calculado os pontos do risco, definida a perfeita medida mais atrevida, dirigia o olhar para o bilheteiro. Este, tomado pela deferência, respeitosamente lhe abria as cortinas.

Com movimentos de cisne ela agradecia e adentrava, pisando em plumas, no escuro do cinema.

A partir daí era dela a mais bela e louca sessão da tarde...

Encerrada a sessão; liberados os espíritos; retocava o batom com o corpo coberto de sêmen e interjeições. 

Antes q a tela anunciasse o fim e as luzes fossem acesas, saia apressada sem olhar dos lados; condenando à loucura perpétua quem tivesse depositado os desejos no seu colo movediço de Medeia.

Sobre a cabeça nenhum avião. No rosto o gozo besuntado. No corpo o querer desregrado. No sangue o inquieto frescor. Na alma o gosto amargo do solo mátrio talhado em séculos de rejeição.

Três semanas depois, já às margens do rio Uruguai, sentindo o cheiro de suas águas não conteve a vontade de tê-la outra vez nas mãos.

Esperando a balsa atracar no porto, Almodóvar assistia a tudo. Bêbado como uma cachorra, balançou a cabeça e disse: - vuelve y habla con ella...










Puruca é uma espécie de peneira com q se separa o grão do café.

Clarisse Lispector. Escritora e jornalista 'brasileira' nascida na Ucrânia.

Simone de Beauvoir. Escritora, filósofa existencialista e feminista francesa.

Medeia, na mitologia grega, era filha do rei Eetes e, por algum tempo, esposa de Jasão. É uma das personagens mais terríveis e fascinantes da mitologia, por envolver sentimentos contraditórios e profundamente cruéis.

Rio Uruguai. Rio q serve de fronteira entre o Brasil e a Argentina. Nasce Rio Pelotas, na divisa entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e se torna Rio Uruguai depois de receber as águas do Rio Canoas. Em sua foz é Rio da Prata, no Uruguai.

Pedro Almodóvar é um ator e cineasta espanhol.