domingo, 21 de dezembro de 2014

Cachoeiras no tabuleiro...




Se o pecado morava no quarto ao lado, a ternura era vista no andar térreo.

Era como se pudesse existir uma enorme distância entre o céu e o inferno.

Era como experimentar o corpo no jardim do inesperado éden, no mesmo instante o calor de um oásis impregnado de desertos.

Afeito a contemplações o dia passava entre refeições. Subindo e descendo degraus o tempo passava num recital de orações. Nem ele sabia de nada.

Sabia q qdo se aproximava do corpo de lírio, o respirar aflito de fantasiar delitos sucumbia à realidade do toque de suas mãos.

Em caso de contratempo ensaiavam correr pelos ventos. Desconhecendo mapas adentravam as matas no mato dentro.

Atentos às ruas iam e vinham em avenidas escuras. Entretidos nas curvas misturavam-se no tabuleiro. Longe de olhares traiçoeiros.

Se algum farol denunciasse sinais de neblinas refaziam o percurso e afinavam o discurso.

Sem outro recurso tocavam-se em silencio, olhando o asfalto molhado de negro. No porta luvas desejos cravejados de segredos, mantidos em cada despedida, até o último beijo.

Quase sempre os domingos adormeciam deixando restos de pecado para a segunda. Cada qual com seu andar conduziam seu andor no quadrado de seus quartos.

No quarto ao lado via-se a ternura descer ao térreo para regar o jardim...










Situada no Parque Estadual da Serra do Intendente, a Cachoeira do Tabuleiro é considerada a cachoeira mais bonita do Brasil. Principal atração da pacata Conceição do Mato Dentro, cidade mineira distante 3h da capital Beagá.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Morena flor do cajueiro...



Saudade é vontade frondosa; fonte gostosa q se joga fronteiriça e goza na cara da gente.

Surge incontinente, assim de um repente, tocando o peito, deixando o coração zabumba.

Com os desejos desnorteados os olhos grudam no rebolado da bunda.

Saudade é lembrança com cheiro. Cabelos negros trançados no mar.

Emoção sacudida na foz do rio. Vazante de vaza barris. Mãos seguras no quadril só encontra refúgio no cangote suado.

Saudade. Desejo traiçoeiro desgraçado. Tentação q vem a galope anunciando florações em janeiros intensos, inteiros, ensolarados.

Remelexos castanhos floreados. Céu de fêmea risonha q sonha acordada. Colhida na boca, anéis estufados no pé da cajueiro.

Tem coisas q nem mesmo o tempo consegue dar jeito...


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O mezanino...




Andar pouco elevado, como manda o recato. Olhar substantivo, um tanto subjetivo.

Se viver fosse preciso, entre dois andares haveria o imprevisível pronto a lhe estender a mão.

No alto, espalhado entre janelas, retratos imprecisos da vida. Sem dar na vista folheava revistas deixadas no porão. Um tanto julieta ruía no balcão.

Vestida de uma melancolia engomada pelas mãos de fada da invisível mucama - sempre a lhe fazer companhia nas sessões de terapia - demonstrava plácida leveza ao se expressar.

Apoiado na prima consanguínea da etiqueta, irmã gêmea da filosofia, o olhar, a revelia da poesia, não imprimia a cadência nem a sinfonia adequada capaz de relaxar.

Por isso nunca se revelara. Nem antes nem no depois, qdo fez pose para a fotografia. Nem mesmo qdo sozinha degustava o ar como gostaria.

Sonhava com cheiros no lago. Folhagens meladas de barro grudadas no corpo. Alma e pernas estendidas redescobria-se presa às correntes mantidas em segredo.

Longe do olhar rendia-se de tal maneira aos desejos, q, mesmo o mais colorido dos filtros não saberia realçar.

Aos poucos o olhar maroto deixava de pedir socorro. Como sempre, como em tantas vezes loucas, resolvia-se ao voar.

No dia seguinte, um punhado de lembranças misturado às remelas encobria outra vez o olhar.

Sobre a mesa o vinho derramado.

No colchão o pensamento avoado, ainda a passear pelo mezanino...


sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Avenida Alberto Bins, número doce...



Feito o esboço desenhou palavras afiadas pelo pescoço.
Nele decifrou missivas. As lidas e as ainda não lidas.

Pela primeira vez não sintonizou a gaúcha.
Invés disso fez garranchos no muro sem ouvir lamentações.

De pálpebras fechadas quis perdurar o instante.
Disposta a decompor-se apalpou o q tinha às mãos.

Ao sentir o nervoso deu as costas à estátua de marfim.
Debruçada desmanchou-se como um doce pudim.

Assim ficou. E assim se foi a aninhar
o anelar e seus vizinhos nas pétalas da orquídea...







Alberto Bins foi o primeiro porto-alegrense a assumir a prefeitura da capital gaúcha. Hoje é nome importante avenida comercial no centro histórico de porto alegre.

sábado, 1 de novembro de 2014

Dardo em tablado absinto...



Não alimento sentimentos.
Eles, sim, me alimentam.

Deixo ao vento o ofício
de me lançar, como ao dardo,
como dado em tablado absinto,
perfume q sinto.

Libertino me carrega
pelo recreio de requebros
donos do recinto...

Centímetro por centímetro
louvados ao som de sinos...


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Conto quase infantil...




Depois de passas horas e horas às voltas com o pensamento na baia, cheio de besouros na cabeça, o cavalo crioulo viu o focinho do porco refletido na bacia em q a égua costumava se banhar.

Por mais cruel q fosse, o mastigar da alfafa trouxe à baila o sorriso oco do amor cego ilhado no próprio escuro.

O pirilampo, q a tdo assistia com ilibada fidalguia cobriu a bioluminescência e retirou a poeira das patas na porteira q demarcava os direitos da casa grande e os limites impostos à senzala.

Quando tdo fez-se breu, vaticinou: nada há de surreal neste mundo. Por mais imundo q possa parecer.

O carrapato, parente próximo do chato, oriundo e criado no mesmo escroto, tratou de alerta o piolho. Este por sua vez fez figa, mas continuou de olho no molho da filha da ursa.

Não menos astuta, a pulga, na defesa das benesses da mordomia, passou a lavar a égua e fazer fofoca da porca à sua mui amiga foca.

Desde então, ao curtir a baia dos porcos, a marmota abaixa a guarda para todos os santos. Pacientemente aguarda subir a crista, para ter seu perfil refletido nas águas do Guaíba sutilmente represadas na bacia areada com areias vindas de Copacabana.

Moral quase impessoal da história:
Quem tem garupa boa costuma selar boas amizades.

No usufruto dos frutos do horto coube ao bobo roer o osso e zelar pelo brilho do fosso; manter sempre à vista a vista grossa; e a expressão facial condizente com a leitura torta...








O cavalo crioulo se originou do Andaluz. Geralmente criado livre, qdo chega à idade adulta costuma ser domado.

Montagem sobre trabalho “horse in fog”, by zethara

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Fantasias de classe...




Sob o palanque misturou com elegância as carnes na fantasia das classes.

Sob a égide igualitária grudou a pele, cara a cara. Na aclamação perdeu a classe. A ausência dos burocráticos entraves estimulou a claque a glorificar com vigor e verve sedosa.

No mesmo instante, sobre o palanque, papagaios agitavam enfurecidas bandeiras sem perceber olheiras nas pupilas do digníssimo senhor reitor.

Passado o prazo regimental, no apagar da derradeira luz, cada um retornou ao convívio de seu oposto.

Por fim, sem mto esforço, beijou a aliança. Antes de deitar deixou engomada a camisa social e, de mto bom grado, lustrou sapatos marrons ao ronco do bem amado.

Deitou relaxada sem se preocupar se seria audaciosa. No gongar da madrugada gozava nas lembranças da noite passada misturada às massas.

Como era doce o vigor ao sabor da vingança...