sábado, 1 de novembro de 2014

Dardo em tablado absinto...



Não alimento sentimentos.
Eles, sim, me alimentam.

Deixo ao vento o ofício
de me lançar, como ao dardo,
como dado em tablado absinto,
perfume q sinto.

Libertino me carrega
pelo recreio de requebros
donos do recinto...

Centímetro por centímetro
louvados ao som de sinos...


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Conto quase infantil...




Depois de passas horas e horas às voltas com o pensamento na baia, cheio de besouros na cabeça, o cavalo crioulo viu o focinho do porco refletido na bacia em q a égua costumava se banhar.

Por mais cruel q fosse, o mastigar da alfafa trouxe à baila o sorriso oco do amor cego ilhado no próprio escuro.

O pirilampo, q a tdo assistia com ilibada fidalguia cobriu a bioluminescência e retirou a poeira das patas na porteira q demarcava os direitos da casa grande e os limites impostos à senzala.

Quando tdo fez-se breu, vaticinou: nada há de surreal neste mundo. Por mais imundo q possa parecer.

O carrapato, parente próximo do chato, oriundo e criado no mesmo escroto, tratou de alerta o piolho. Este por sua vez fez figa, mas continuou de olho no molho da filha da ursa.

Não menos astuta, a pulga, na defesa das benesses da mordomia, passou a lavar a égua e fazer fofoca da porca à sua mui amiga foca.

Desde então, ao curtir a baia dos porcos, a marmota abaixa a guarda para todos os santos. Pacientemente aguarda subir a crista, para ter seu perfil refletido nas águas do Guaíba sutilmente represadas na bacia areada com areias vindas de Copacabana.

Moral quase impessoal da história:
Quem tem garupa boa costuma selar boas amizades.

No usufruto dos frutos do horto coube ao bobo roer o osso e zelar pelo brilho do fosso; manter sempre à vista a vista grossa; e a expressão facial condizente com a leitura torta...








O cavalo crioulo se originou do Andaluz. Geralmente criado livre, qdo chega à idade adulta costuma ser domado.

Montagem sobre trabalho “horse in fog”, by zethara

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Fantasias de classe...




Sob o palanque misturou com elegância as carnes na fantasia das classes.

Sob a égide igualitária grudou a pele, cara a cara. Na aclamação perdeu a classe. A ausência dos burocráticos entraves estimulou a claque a glorificar com vigor e verve sedosa.

No mesmo instante, sobre o palanque, papagaios agitavam enfurecidas bandeiras sem perceber olheiras nas pupilas do digníssimo senhor reitor.

Passado o prazo regimental, no apagar da derradeira luz, cada um retornou ao convívio de seu oposto.

Por fim, sem mto esforço, beijou a aliança. Antes de deitar deixou engomada a camisa social e, de mto bom grado, lustrou sapatos marrons ao ronco do bem amado.

Deitou relaxada sem se preocupar se seria audaciosa. No gongar da madrugada gozava nas lembranças da noite passada misturada às massas.

Como era doce o vigor ao sabor da vingança...



terça-feira, 23 de setembro de 2014

Talo de flor...



A propósito,
posso não ser
teu grande amor,
mas é grande
meu amor por vc

No estalo lá estou
a corteja-la no talo,
como sempre foi,
tantas vezes for
como flor, outra vez

Assim ser vida,
seja como Cecília,
seja como Frida;
enlaçado como for,
lá sou beija-flor...

sábado, 20 de setembro de 2014

Nos caracóis de teus pentelhos...




Um bucólico cheiro de cio inundara o quarto, àquela hora entregue à penumbra.

De nada adiantou buscar sentido no inexplicável. Algumas realidades são imponderáveis. Esta era a única percepção plausível q tinha do inacreditável fato de ter chegado até ali.

Caracahuega era um povoado erguido no meio do nada, na transversal do tempo, em uma rota vicinal da rodovia q levava ao atracadouro construído na principal afluente do rio juramento.

Os pouco locais sobreviviam da agricultura familiar. Plantavam sem a certeza de colher. Viviam pelo viver. Simples assim sei q é difícil de crer.

Mas era um povoado feliz. Tranquilo até demais. Apesar dos ruídos q acordava a todos, todas as noites, vindos do pé da serra de Mbaracayú.

Alguns diziam ser Kurupi. Outros insistiam ser Jasy Jatere, acompanhado de seu irmão Ao Ao. Para mim era a mula perdendo a cabeça, mas, ninguém me entendeu...

Longe do disse-me-disse, fosse com lamparina apagada ou acesa, a noite adentrava no cio da madrugada e suas infernais veredas.

Dizia ser culpa dos sonhos q não lhe dava descanso.

Fato. Seu corpo esparramava curiosa brasilidade na cama. No atravessar das coxas aquecia travessa o travesseiro recheado de penas de ganso.

De dama à potranca bastava um pulo.

De pulo em pulo saltava as virtuais e eventuais cercas, e encarava a realidade, bela e lírica, cantando “gracias a la vida”, soltando da braguilha a pica de seu amor.

Coberta a imagem da santa, ajoelhava com a boca untada e lambia um terço. Conforme o tempo passava retirava os adereços. Como em um passe de mágica esquecia q tinha endereço.

Largados os encantos de fada renascia vistosa encarnação da malícia.

Sem temer o pecado da gula cozinhava docinhos de pecado no corpo suado, na sede do pobre diabo saciado com feitiçarias caseiras.

O q antes remexia por dentro perpetuava-se noite adentro corpo a fora, em ecos, uivos e dilúvios.

Depois adormecia, em silêncio, em paz...

No dia seguinte, nas rodas q se formavam à espera do almoço, alguns caracahueganos continuavam a apostar no Kurupi. Outros, mais exaltados, não se sabe pela fome ou pelo cansaço, insistiam no Jasy Jatere. Vai saber...

O q ninguém viu foi a mula perdendo a cabeça...

Aliás, antes q eu esqueça: Casi siempre, entre el lunes y el martes, tenía la costumbre de acumulavar. Entonces, en estos dias, ni era necesario hacer las apuestas.

Todos sabían: era un dios nos ayude…










Segundo a lenda paraguaia, Kerana, a bela filha de Marangatú fora tomada por um espírito do mal chamado Tau. Juntos, Tau e kerana, tiveram sete filhos: Teyú Yaguá, Mbói Tu'i, Moñái, Jasy Jatere, Kurupi, Ao Ao e Luisón. Todos, exceto Jasy Jatere, nasceram com a forma de monstros.

Kurupi é o deus da sexualidade. Costuma sequestrar as mulheres com seu pênis enorme e largo, sempre preso à sua cintura.

Jasy Jatere é um homem baixo de cabelos louros. Costuma surgir durante o sono portando uma varinha mágica. É conhecido por fazer desaparecer quem o vê. Está sempre na companhia de seu irmão Ao Ao.

Ao ao é considerado o deus da fecundidade. Dizem q teve muitos descendentes, e q andam em grupo comendo as pessoas. Segundo os mais antigos, para se salvar de um Ao Ao, deve-se subir até o alto de uma palmeira.

"Gracias a la vida" é uma canção composta pela cantora chilena Violeta Parra.


quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Entre vidraças... Entre cobertas...




Tinha as vidraças entreabertas
quando sentiu o sopro de dedos nas dunas.
Ao contornar o colorido impulso da orquídea
todo o entorno suspirou vida.

No perfume de sua floresta à descoberta
fortes indícios de festa.
Sem mta conversa não esperou a noite ser
descoberta entre cobertas.

Em outras palavras,
abriu as asas soltou-se às feras
até a manhã ser, de verdade,
redescoberta de janela aberta...

sábado, 13 de setembro de 2014

Náus intecionadas... Redes sem fim...



Naus intencionadas singram o mar com afiadas navalhas.
Sem sentir náuseas resvalam no declive da calha, quando não
encalham na sujeira deixada sob o risco de telhados de vidro.

Debaixo de chuva ama-se o q dá na telha.
Debaixo da terra valem os ossos do ofício de sermos todos iguais.

Em curto prazo avistam-se interrogações na testa. No porão
a balada é outra. Uma coisa é certa. Tão certa qto certidão de flecha:
a imagem consagrada nunca acaba qdo a imaginação termina.

Para naus intencionadas não há nada q o valha, mormente
o q graça fora das quatro linhas invertidas de suas retinas...





Montagem sobre a obra “Redes sem fim”, da artista gaúcha Esther Bianco. A interferência no título tem o claro intuito de indicar o fio da linha...