quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A gota da água...



Sem lembrar com exatidão a extensão da prosa abriu as portas daquilo q parecia ser sua morada. Com olhos sonolentos tateou seu corpo demoradamente no espelho d'alma.

À sua frente uma estrada sem rumo a se perder...

Sem nada dizer e nem conseguir conter o q se mostrava inútil meteu a boca no lúdico e beijou de modo brusco o mundo e toda a sua falta de conteúdo.

Na sede do olhar cego q se lançava em suas curvas, sentiu o bater das gotas da chuva lavando as ruas e as amarguras na madrugada. Sem pensar em mais nada deitou no leito da estrada e se deixou levar embriagada.

Naquele dia bebeu a liberdade...



quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Libertino... Libertango...



Sentiu no bailar do corpo
Um gosto de ir se libertando
No começo tocou mansinho
Sorrisos por todos os cantos

E foi se soltando, girando
Tocando calma a su’alma
Com a ponta dos dedos
Soltas a dançar um tango




Libertango é uma composição de Astor Piazzolla. O título é uma fusão de "Libertad" e "Tango", simbolizando uma quebra de paradigmas, no surgimento de um novo tango.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Enigma...



Com habilidade trapezista exibia no ar suas formas sinuosas e, em sua grande maioria, assimétrica. Postulava mais q possuía uma estética assaz frenética. Com isso alimentava instintos e suplícios de almas q se desmanchavam no igarapé onde costumeiramente mantinha a umidade interativa de suas asas.

Por nunca saber definir-se sobre a vida acreditava no q lia e repetia a exaustão em sua devida redoma de vidro. Qdo cortejada enaltecia um rubor q não tinha. Ao ter a mão beijada seu corpo se consumia em árias de notas sólidas.

- Dios mio, q desagradable! Que Chico lleno de entusiasmo!

Quando nervosa elevava o tom da prosa, quase sempre em teatral tom de desagravo. Enojada fingia execrar a revoada. Entretanto, isenta dos ditames, conduzia a matilha expondo malícias em seus lábios inflamados, envenenados de promessas e reclames recheados de quartas intenções.

Assim salpicava cores acesas pelos campos, com contos e metáforas construídas, conforme lhe convinha, com linhas imaginárias. Coisa q nem a todos se conta. Com elas passava seu tempo, acreditando q algum dia pudesse, enfim, assumir sua condição mundana.

Entretanto o tempo permanecia mudo...

Nesse mesmo tempo viu rosto coberto de marcas. Em silêncio enxugou as mágoas e continuou a encantar as almas.

Sem q se percebesse manteve-se em segredo, sem conseguir decifrar ou livrar-se do estigma, enigma cada vez mais pesado e difícil de suportar: Borboleta não ama. Borboleta tão somente se deleita, quando se deixam serem amadas...

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Der schwan...



Ao ouvir Illényi Aniko acariciando as cordas de seu cello, meu espírito se deixou levar por uma brisa de refrescantes notas. Logo no primeiro instante sua música se fez íntima e, como suspiro suave soprou delícias na alma, acendendo luzes pelos labirintos do corpo.

E me levou distante. Nem sei por onde. Lembro q o pensamento atravessou com minha querida fotógrafa Maysa Alburquerque um parque recheado de dunas. Cheguei a comentar como seria bom se a vida fosse uma eterna via costeira beirando ondas nas águas de algum mar.

Pois foi assim q eu a encontrei e fui envolvido pelo movimento suave de seus braços. Um pulsar crescente feito de um único compasso. Um espaço de tempo, sem tempo, a me conduzir de olhos fechados.

Era visível o êxtase com q se derramava e saboreava cada expressão de lamento. Incomensurável prazer q a lucidez proporcionava àquele momento. Era possível sentir o perfume da flor q não se cheira, mas se apalpa e se lambe. Só então respirei o q me faltava enxergar e abracei a vida q me assaltava a alma desarmada e rendida.

Qdo me dei conta já não contava os passos e nem os descompassos. Um a um eles se desprendiam dos rastros marcados na areia. Não havia mais apego nas pegadas. Por mais profundas q fossem estavam largadas, a mercê de um mar q lavava e levava o q restava das ilusões.

Sem me preocupar em decifrar códigos ou enigmas dos porquês reconheci no abraço a exata dimensão do q se é e o q se pode vir a ser. Reconheci tbém, na liberdade, a verdade do não ser. Retirei das gavetas todas as cartas q não escrevi e dediquei cada uma das minhas tristezas. Aprendi a ver com clareza a maneira como o choro debulha o sorriso e, mto mais q isso, q todo paraíso tem seu sentido, mas q é preciso viver além dos juízes e falsos juízos.

Tdo era óbvio. Restava sentir meus pés no caminho. Bastava seguir o instinto dos carinhos q ainda iriam me receber.

Na mesma tarde em q as portas se abriram para Illényi Aniko ouvi minhas mãos falarem em alemão. Vai entender a razão! Só então percebi q horizontes são asas q se repartem qdo se abrem. E q o cisne, qdo as fecham, faz do universo o seu mais cristalino lago.

No instante q se seguiu foi natural vislumbrar o mar e o lago de Mario Lago. Não disfarcei o sorriso qdo pensei: Mas isso é para quem se atreve a deixar q Aniko lhe carregue... Mesmo q seja de forma breve.






PS: Quem dera, ao invés de joelma com seus chimbinhas, o brasileiro descobrisse o prazer de ouvir Illényi Aniko tocar “Der Schwan“.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Poético provérbio...



Leve a vida como pluma leve. Solta no ar transpõe as próprias evidências com sábias transparências. Por opção e com excelência flutua impassível pelo impossível, no tempo preciso e possível, sempre regida por sua essência. Sem temer céu aberto ou esconderijos e, na medida do possível, sem nada a esconder...


sábado, 19 de novembro de 2011

Para Milton Nascimento...



Nascer pareceu ser invisível. Somente o atiçar dos sentidos, desde o primeiro momento se mostrou em mil tons. Nenhum dos dois soube até agora dizer o q veio a ser. Sem enxergar o ar q respiravam, eles se amaram passageiros de uma paixão inteira e sem razão. Contrariando todas as lógicas descobriram o qto a ilusão era palpável, q suas formas tinham um delicioso sabor matinal.

A emoção cega carregava suas almas, q se entregavam pelos vãos dos corpos, escancarando portas e janelas aos ventos igualmente cegos e devastadores.

Alimentados por lampejos desenharam seus corpos de desejos, com todas suas formas abstratas e inexatas. Vestidos de fantasias se despiram e atravessaram noites e dias, sonhando com o dia em q, de corpo e alma, fizessem de seus corpos a definitiva morada.

Enquanto isso, de mãos dadas percorreram o lixo ocidental com seus olhos voltados para o oriente. Sem a necessidade de heróis. Sem medo ou timidez seguiram o mundo além de seus quintais. Não pq se sentissem moços, mas pq todo dia era o dia de viver...








Caso seja do interesse, prossiga a leitura ouvindo "Clube da Esquina nº 2", de Milton, Lô Borges e Márcio Borges

terça-feira, 15 de novembro de 2011

The end...



Atraídas pela gravidade da imaginação, a saliva escorria quente pelos cantos da boca, despejando gotas pelas estradas q se abriam em rugas na sua pele. De onde estava pude observar a agonia do verme ao perfurar cada uma das palavras q revestiam a alma ainda cheia do desejo de vida.

Eram mtos os urubus a dar rasantes pelos pensamentos. Pareciam bailar a sinfonia da ópera desfeita, de um amor cego e íntimo aflito. Mostravam-se solidários, parceiros e nutridos de uma satisfação mórbida. Mantinham-se à espreita, como a lembrar com suas presenças a temível espera do último golpe. O fatal.

Sem mais espaço para sonhos, a esperança cega e embrutecida tentou as derradeiras braçadas nas corredeiras das salivas já embranquecidas. No mesmo compasso q perdia suas forças era tomado por uma consciência brutal, q deflorava e apontava de seu destino. Por fim, reconhecendo sua desgraça, abençoou o tempo perdido na busca de sua terra e do amor prometido. Tdo era desértico no instante sem estética daquele horizonte enlouquecido.

Certo de q não havia mais nada q pudesse fazer e sem forças para tentar alguma outra saída vi seu corpo desaparecer submerso. Entregue e sem mais nenhum sentido. Pela vidraça olhei a tarde nublada formar penumbras em suas formas. Então se deitou na cama com sua alma tranqüila e fechou os olhos. Com uma das mãos aberta estirada sobre o lençol prendia uma fotografia já manchada de tempo. A outra, fechada, fazia força para segurar o ponto q anunciaria o capítulo final.

Lá fora chovia. Lá dentro o tempo já nem se preocupava em ser frio ou quente. O celular desligado não sabia da saudade do lobo em escutar Marina Lima. Normal. Até pq nem sempre se vê mágica no absurdo...









No parágrafo final, uma incidência outonal da música “Me chama”, de Lobão. Na ilustração, cena de Marlon Brando no filme “The Godfather”, dirigido por Francis Ford Coppola e baseado no livro de Mario Puzo. O Poderoso chefão, como é conhecido no Brasil, ganhou o Oscar de melhor filme, melhor roteiro adaptado e melhor ator.