terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Os dias no teu luar...



Tenta adormecer, mas não esquece. A duras penas repassa os olhos em sua volta e percebe q tem somente o q merece. Lembrou dos tempos de Havana, qdo fumava seu charuto deitado na rede, a contemplar, com o olhar mudo, a beira da praia. Hoje já nem fala...

No epicentro os ventos varrem púrpuras proezas para algum lugar sem nome, deixando sobre a mesa apenas um recado sem tanto recato. Tdo muda de repente. Um sorriso fluente invade a cena de forma surpreendente.

A natureza generosa se espalha com a força e a leveza dos rugidos e bate insistente em sua janela. O cavalo louco pisa com suas patas sobre a cor indolor. A alegria já não encontra morada na filosofia de uma angustia q se esvai na folia q resta do dia.

Sente calor, mas não se ressente da chuva. Em sua boca encontra um céu com o delicioso gosto da uva. Sem pensar em fugir entoa cantigas de reagge. Tdo, enfim, transparece sem nenhum peso q se carregue. Deitado na cama ele derrama seu corpo no amor sem trama. Então floresce...


domingo, 22 de janeiro de 2012

Gargarejando Graciliano...



Quando me despeço dos versos sempre lhes peço: não se façam de rogados ou se deixem levar por regalos pré-moldados. Quando inseridos em rabos de saia de temperamento complexo sigam à risca. Quem arrisca corre o risco de entender a lógica do acaso. Quando possível façam sarcasmos do amargo grudado nas entranhas das linhas.

Quando me despeço dos versos peço q se dispam de mim.

"Um arrepio atravessa-me a espinha, inteiriça-me os dedos sobre o papel." 

Em parte sou atendido. Nem por isso regozijo. Sou atrevido. Quando gozo dou rugidos. Tal felicidade do feto ao tocar o útero. Consciência irracional da luz.

Viver sempre foi artigo pessoal incorrigível.
  
"Naturalmente são os desejos que fazem isto, mas atribuo a coisa à chuva que bate no telhado e à recordação daquela peneira ranzinza que descia do céu todos os dias."

Vivo o q me mastiga vivo. Enquanto vivo vejo a vida fazer da gata sapato a me levar no papo com calma insana. A "sacana" ainda me vira o tempo no avesso do verso. Mel confesso fico a lamber sua insensatez.

Só não sei q adianta ser osso bom de roer. A cadela sempre retorna às benesses do rei.

Sem alimentar contentas, o íntimo da tenda só a gente consegue ler. Podas antecipadas não moldam moinhos. Raiz torta quem sustenta e dá consistência à satisfação de florescer.

Sei qto meu cuspe resvala à vala dos loucos. Ainda assim insisto em lançar apostas no oco. Ainda a pouco ouvi no tempo rajadas do vento tentando varrer suas unhas de minhas costas. Que bosta desatar barbantes sem se fazer entender!

Dizer é pouco. Descrever provoca "papoco" e um turbilhão de papo oco. Inútil se estender; até pq, com certeza, certeza é a maior de todas as ilusões.

Quando escrevo me faço entender q nunca alcançarei o inteiro de mim. Quando for, serei, sem ver meu fim.

Até lá minhas palavras continuarão cabras cegas a gracejar no bico esquerdo dos teus peitos...









No percurso do texto, injeções providenciais de trechos do romance “Angústia”, de Graciliano Ramos; escrito no período em q foi mantido preso pelo governo Vargas.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Eu fui no Tororó...




Quem espera nunca alcança. Se por acaso estiver sentado, pode cruzar os braços e guardar a esperança em algum lugar debaixo do sofá, pois esse mundo não tem solução. Acha q estou pessimista? Então perca um instante e passe em revista o tanto q se sonhou. John Lennon cantou. Ghandi se doou. Luther King se imolou. Tanta gente esperou pela banda, mas, qdo ela passou levou com ela o pouco q restava de senso crítico e das coisas de amor.

Quem não cansou de esperar, hoje é obrigado a suportar a profusão do mesmo da mesma coisa. Tdo vem empacotado e hermeticamente igual. Mudam-se os nomes, mas a essência das coisas tem um ritmo só. Como diria Josefina, um transformista q fez aula de canto em Paris, mas nascido em Caicó: "Mon cher, é o "Ó" sem borogodó. N'est pa?".

Nessa vida já vi quase tdo. Adolescente vi a Rose de Primo lançar moda de tanga. No sertão caboclo dançar de banda, dizendo ser a nova onda. Presenciei o surgimento do sexo grupal em lual feito na paz do amor. Assisti ao delírio da praça eletrizada pela guitarra de Dodô. Lembro q enrolava o sleeping bag, enquanto todos cantavam q quem sabia não esperava acontecer. Acontece q qdo Harrison voltou da Índia todos começaram a repetir o namastê.

Até donzela q se dizia emancipada dava com os burros n’água em plena lua de mel. Mas, não adiantava mais nada, pois o q era doce escafedeu-se no beleléu. Depois da nova república, qdo tdo parecia enfim tomar o rumo do céu, vi cafajeste tirando onda, subindo a rampa com pinta de menestrel. Vi cada tipo escrotro fingir ser religioso, mas a reza q lhe servia só se fazia no bordel.

Para não perder o rumo dessa toada, vi gente de cara pintada fazendo cena e levantado bandeira. Vi bandido vestido de Armani ditando ritos e o bicho na gafieira. Vi as maldades e as beldades q desfilavam nos carros blindados das autoridades q se diziam democratas e cristãos. Juro q me emocionou ver as pessoas batendo na lata, acreditando nas cascatas mais gigantescas q as do Iguaçu. Sem falar nas q tomavam na rima, esperando a boa conduta de quem lhes representava no parlamento. Esse é o país do esquecimento. Sua cara não é de pau, é de cimento. E ainda dizem q burro é o jumento.

Em nome da boa fé perdi a conta dos escravos de Jô faziam procissão na porta da igreja. Recitavam salmos e, com sobressaltos, davam aleluias exibindo entusiasmados o carnê da salvação. Enquanto isso, no lado de lá dos muros de arrimo, o seu salvador contava o dinheiro sorrindo, com a passagem para Miami na mão.

Mas nada, nada mesmo se compara ao absurdo de ver tantos imbecis discutirem com ares eruditos a sexualidade e estupro consentido nas televisões. E o q é pior, ver um país inteiro perder seu tempo, preocupado com uma paraibana q estava no Canadá. Assim não dá.

E não é q deu? Aliás, full deu de boca cheia. Cansei de tanta besteira. O q ninguem se preocupa e q, enquanto reparamos se a saia da viúva está mais curta, as grandes coorporações nos estados unidos preparam a sopa q os salvará da falência. Mas, quem se toca? Hoje o mundo só se preocupa em rebolar o “pega-pega” de Michel Teló. É de causar dó...

O jeito é descer a ribanceira e voltar para o Tororó. Quem sabe ainda encontre a bela morena q lá deixei...


Pia vazia... Ralo d'alma...



Qdo menina costurava com linhas a sua boneca. Com a mesma linha costumava dividir os espaços de seu quarto, demarcando os limites do q poderia ser visto. Só não sabia como fazer para esconder seu medo de transparecer tdo o q, aos olhos de todos, certamente ela não era. Maldito espelho q insistia em revelar o qto era bela.

No parapeito da janela sorria e cantava melodias, a se imaginar Rapunzel ou alguma uma Cinderela. Só não gostava de fazer cenas com príncipes cheios de dúvidas, dívidas e novelas.

Sem sapatos e nem calcinha encostava-se à parede. Mordia os lábios e molhava os dedos, despertando fantasias e agonias nos transeuntes q acreditavam possuir seu coração. Senhora de tantas ilusões, debruçava desfigurada e, com a alma escancarada, rolava displicente pelo chão. E assim, todo santo dia, em segredo, deixava aflorar seus adolescentes e diabólicos encantos. E eram tantos...

Mas, como tdo passa. O tempo passou. Mta coisa mudou. Já não havia tantos amantes disputando a sua janela. Nem os sonhos eram tão delirantes. Nas fotografias, no entanto, continuava bela. Deitada na cama coberta de lembranças, ela fechava os olhos sem entender o pq de tantas mazelas.

Já não conseguia controlar seus medos. Em segredo tentava refazer cada um de seus passos, como se quisesse prender o tempo na mesma gaveta onde guardava os encardidos laços de fita e os álbuns de retratos.

Vida maldita. Retalhos de vida. No seu íntimo continuava a se ver como uma menina. No entanto, para seu desespero, já não tinha mais como encontrar seu brinquedo favorito. Nem mesmo sabia o q fazer para conter seus prantos. E eram tantos...

Todo dia, olhando a pia vazia, ela via su’alma escorrer pelo ralo. Enquanto isso, os ratos continuavam a roer os laços de fita amarrados em seu portão...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Pimenta... Pimentinha...



Pimenta nos outros é musica
Nela era pura elegia da energia
Gaúcha de porto alegre
No palco sua alma corria leve
No toque das teclas do piano
Seu cantar equilibrista
Entre abraços e embaraços
Mergulhou nas águas de março
Da transversal do tempo
Na insensatez do falso brilhante
Bebeu cada instante num copo vazio
Híbrida flor de Elis...
Tanto q ela foi. Tanto que quis
Em mil tons ser feliz

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Rodas Rodin... Labirintos Dainad...




Enquanto o dia amanhecia, a lua me conduziu por entre as réstias e pelos restos de espermas q escorriam em suas pernas. A partir daquele ponto um mar de escuridão pareceu se iluminar no q existia oculto. Mto distante de cada um dos endereços onde normalmente ela poderia ser encontrada.

No mesmo instante olhei silencioso seu jeito vagaba de rastejar o tesão. Ao estender suas mãos em súplicas, ela expunha toda uma necessidade de alimentar seu prazer em sofrer por amor.

Céus e infernos múltiplos se tornavam uma única célula. Viva e alucinante. O núcleo invisível e inesgotável do prazer a transportava de uma forma intensa, inteira e cega. Nas corredeiras dos labirintos de uma emoção sem regras, a consciência se sentia cada vez mais inteira, conforme ia se revelando um nada.

Com uma beleza única e sedutora, ela seguia ipsis litteris ao comando firme do meu pensamento. Qto mais se prostrava emergia numa irresistível escrava. Tornara-se impossível não querer possuí-la.

Para ela sentir-se à mercê tornara-se imprescindível naquela hora. Então, curvando ainda mais o corpo sobre o joelho, e tomada pela loucura, ela tocou o nariz nos dedos daqueles pés q tinha a sua frente. O gosto de servir, definitivamente, tomara conta de sua alma. A espera ansiosa do castigo misturava tortura e agonia.

No desespero não se conteve e, finalmente, se entregou ao destino. Num gesto tão arriscado qto inesperado sentiu na ponta da língua o mesmo sabor q sentia em seus delírios. Sabia q era desatino, mas, arrastando a língua, ela passeou lentamente por todo o corpo daquele homem q deseja ter como seu dono.

O q se deu daquele dia em diante, nem aos deuses ela tinha coragem de revelar. O q se conta é q todos os dias ela estava lá, curvada, a embriagar-se na fonte do seu prazer.




Montagem feita com base na obra “The Danaid”, escultura em mármore branco esculpida por Rodin / 1886 - 1902. A estátua representa a figura de Danaid, uma das filhas de Danaus, q matou os seus 50 noivos na noite de núpcias. Todos foram condenados a retirar água do lago com uma peneira por toda a eternidade.

Mar de amar... Maremotos...



Mar de uma solidão q n’algum lugar espraia
Beirando azul o horizonte nu q o olhar afaga
Mar de maremotos peitos expostos na praia
Alucinado mar a deslizar no teu corpo arraia

Mar de tanto amar em abraços q incendeiam
Lascivo a bordar rastros serpenteados na areia
Mar de instantes sonhar no quarto a lua cheia
Imensidão desse mar a pulsar latente na veia

Mar a me puxar voraz com loucos rompantes
Como se fosse eu sua puta fugaz, sua amante
Mar a explodir arrecifes e fetiches alucinantes
Despedaçando pedras, leve trôpego e errante

Mar, imprevisível amar de tantos tormentos
Ondas insanas soltas em loucos fragmentos
Mar q lambe meu umbigo com atrevimentos
Minh’alma faminta o implora por alimento